Haneke filtra o veneno do mundo

Le Ruban Blanc flagra a violência de forma implícita e terrível, por ser sutil, e leva o cineasta a ser forte candidato a prêmios

Luiz Carlos Merten, CANNES, O Estadao de S.Paulo

22 de maio de 2009 | 00h00

Existem autores que são reconhecidos como ?queridinhos? dos programadores de grandes festivais. Todos os filmes de Lars Von Trier passaram aqui em Cannes, integrando diferentes seções do festival. Os de Michael Haneke também, mas, ao contrário de seu colega dinamarquês, o cineasta austríaco nunca ganhou a Palma de Ouro. Prêmios do júri, de direção, só falta a Palma para Haneke. Este pode ser o ano da consagração, até por que na presidência do júri está uma ?fidèle? do diretor, a atriz Isabelle Huppert, que ganhou seu segundo prêmio de interpretação em Cannes num filme de Haneke, A Professora de Piano. Mas a verdade é que Isabelle não precisará fazer muita força se quiser premiar Haneke.Das Weisse Band (Le Ruban Blanc) pode muito bem ser o melhor filme de Haneke, o que poderá parecer uma afirmação temerária, principalmente para quem já aprecia o cineasta. O filme, segundo a própria produtora - Margarete Menégoz, da Losange Films -, marca uma mudança importante. Haneke não precisa mais mostrar a violência - graficamente - para continuar falando nela. Seu novo filme marca o retorno do cineasta ao idioma alemão. Passa-se na Prússia e começa em 1913. O próprio Haneke define Le Ruban Blanc - "O filme trata do sistema repressivo de educação que alicerçou o nazismo." A história, propriamente dita, passa-se nesse lugarejo cuja calma é perturbada por sucessivas tragédias.A primeira atinge o médico que cavalga, a caminho de casa. Ele sofre o que parece um acidente, mas na verdade foi uma tentativa deliberada para matá-lo. Seguem-se manifestações variadas de violência, incluindo ataques a crianças, uma delas portadora da síndrome de Down. A infância é venenosa como o mundo adulto, o médico é, na intimidade, um monstro. Haneke não renunciou à sua visão derrisória da humanidade, mas depois do remake norte-americano de Funny Games ele não precisa mais ?filmar? a violência. Ela é implícita, e mais terrível - justamente por ser sutil. Le Ruban Blanc é extraordinariamente bem-feito e interpretado. A fotografia em preto e branco é deslumbrante. O elenco é impecável e as crianças são - que adjetivo empregar? - incríveis. Imagine uma série de Fernandas Montenegros dos 7 aos 70 anos, em todas as fases da vida.Posto que o festival já se aproxima do final, pode-se pensar na premiação. Um prêmio de direção, senão a Palma de Ouro, seria bem-vindo para Haneke, mas existe o filme de Jacques Audiard, o preferido de toda a imprensa aqui na Croisette - Un Prophète tem o maior número de cotações máximas no quadro da imprensa nacional (francesa) e estrangeira. A Palma para Pedro Almodóvar? Por mais belo que seja, Los Abrazos Rotos está longe de ser uma unanimidade. A maioria da crítica está acusando o grande diretor espanhol de se repetir. Bobagem - ele não se repete mais do que todo grande autor fiel a si mesmo. A Palma para Alain Resnais? Embora Les Herbes Folles tenha conseguido unir publicações rivais como Cahiers du Cinéma e Positif em torno do autor - ambas consideram o filme obra-prima -, o novo Resnais desconcerta, para dizer-se o mínimo. A história da mulher cuja bolsa é roubada e do homem que encontra sua carteira é uma série de acasos que vão se encadeando. Resnais trabalha na filigrana, possivelmente interessado em provar que se pode fazer grande cinema a partir de nada. Les Herbes Folles baseia-se num livro de Christian Gailly (L?Incident). O próprio Resnais afirma não possuir um método. "Faço os filmes como eles me vêm. Carrego vagas lembranças da escola surrealista e da escrita automática, mas, no geral, trato de fazer com que o inconsciente predomine sobre o consciente." Les Herbes Folles é divertido, inteligente, esplendidamente realizado. A ducha de água fria é o final, que desconstrói toda a graça. A dúvida, aqui, é crucial - mas, afinal, o que Resnais quis dizer com seu novo filme? Para entrar em detalhes, seria preciso contar o final, o que não é o caso. Aguarde o lançamento para entrar na discussão. Na CroisetteSe eles estavam representando, merecem o Oscar. Brad Pitt e Angelina Jolie desembarcam em Cannes sob os rumores de uma separação iminente. Uma revista francesa alimenta o escândalo na capa de sua edição desta semana. Angelina traiu Brad com uma mulher. O affair teria sido testemunhado pelo guarda-costas da estrela, que anuncia um livro, possivelmente best-seller. Rumores à parte, eles fizeram o número do casal apaixonado na escadaria do palais, durante a montée des marches de Inglorious Bastards, o novo Tarantino. O próprio Quentin sabe como dominar o tapete vermelho. Ele dançou, na entrada do palais, com sua estrela francesa, Mélanie Laurent. Mais uma Palma de Ouro para ele? Existem críticos - muitos - apostando que sim.Cannes também é glamour e todo mundo sabe disso. O dono da grife de roupas de luxo Ed Hardy resolveu comemorar seu aniversário numa festa de arromba. O bilionário francês Christian Audigier, nascido em Avignon, é um vitorioso no mercado americano. Ele conta sua história no livro My American Dream, lançado ontem. Para comemorar 51 anos, Audigier fez uma festa exclusiva para 3.500 convidados, que incluíam personalidades como Lenny Kravitz, Michael Jackson (sim), Prince e Sharon Stone.

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