Haendel: longe da religião, um profeta do poder da arte

Peças do compositor, 250 anos depois de sua morte, mantêm encanto pela qualidade técnica e não pela temática litúrgica

Martin Kettle, THE GUARDIAN, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

O que George Friedrich Haendel tem que se conecta de maneira tão vigorosa com seu país e seu povo? Sei qual costumava ser a resposta. Há um século, Haendel (1685-1759) e sua música eram instituições britânicas coletivas. Em cidades industriais, multidões acorriam para ouvir seus oratórios executados por elencos de milhares de amadores, em sua maioria. Eles permaneciam em posição reverente sempre que o coro Aleluia era tocado. Em casa, tocavam seu Largo nos pianos. Os lares tinham bustos de Haendel sobre a cornija das lareiras. Ouça trecho de TheodoraHoje, os bustos acumulam poeira em bazares de caridade. O protestantismo de massa que se via manifesto nas execuções de Haendel desapareceu. Os milhares que costumavam executar essas obras deram lugar, também, a grupos muito menores, mais especializados, como The Sixteen (apesar do nome, ''os 16'', ele tem mais de 60 artistas). Até onde sei, ninguém jamais acatou o pedido de George Bernard Shaw à Câmara dos Comuns por uma lei tornando crime executar oratórios de Haendel com mais de 80 intérpretes. Mas a lei de Shaw virou uma prática. Hoje em dia, é mais fácil ouvir uma ópera de Haendel que um de seus oratórios - com raras exceções, como Theodora, que está sendo apresentado na edição deste ano do Festival de Salzburgo.O resultado é que Haendel deixou de ser uma instituição e voltou a ser compositor. No entanto, ele ainda consegue lotar uma sala de concertos britânica muito mais facilmente do que quase qualquer compositor vivo. Sua música desfrutou de um poderoso ressurgimento desde as últimas décadas do século 20. E essa onda percorre o mundo. Até Plácido Domingo está fazendo Haendel. Mas em nenhum outro lugar o apetite por Haendel é maior que na Inglaterra. Como a cultura cívica e o protestantismo tão enfaticamente desapareceram, esse entusiasmo só pode ser explicado pelo caráter da música em si. O renascimento atual de Haendel tem a ver, portanto, com as notas e a maneira como Haendel as juntou e coloriu. Tem a ver com a credibilidade de sua arte. Quando Haendel fala - e ele tem tido muito a dizer neste 250º aniversário de sua morte - sempre se pode acreditar nele. Ele é o grande comunicador da música. Isso não significa que sua produção deva ser tomada sempre pelo seu valor de face. Um colega, durante um concerto recente, ouviu a interpretação da ária para soprano Endless Pleasure e concluiu que aquilo se tratava, de fato, de masturbação. Essa pode ser uma interpretação extrema. Mas nenhum compositor reciclou a própria música de maneira mais hábil de um contexto para outro. Haendel regularmente saqueava suas primeiras óperas, muitas vezes atrevidas e seculares, para reutilizar trechos em música que a maioria das pessoas, encontrando disfarce final em seus oratórios sacros, considerava piedosa e sublime. Zadok, the Priest, que recebeu uma execução maravilhosamente nuançada por The Sixteen em concerto de duas semanas atrás no Proms, pode ter sido composta como um grandioso hino para a coroação de George II - mas, numa versão pasteurizada, ela hoje virou canção tema de televisão para a primeira divisão do futebol britânico. Haendel, aliás, seguramente teria aprovado, desde que fosse pago por isso. Mas há uma questão artística mais ampla por trás de tudo isso. Shaw diz que quando Haendel coloca as palavras ''Fixed in his everlasting seat'' no oratório Samsom, ''o ateu fica sem palavras''. Não acredito que isso seja verdade - e não acredito que Shaw realmente achasse que fosse tampouco. Isso não significa pretender que as crenças que Haendel expressa não são importantes. Mas não é a teologia e sim a música, a poesia e a participação na performance que são impressionantes. O coro Aleluia não me faz acreditar em Deus. Nem Zadok, the Priest faz de mim um monarquista. Mas ambos me deixam eletrizado de prazer com a maestria de Haendel, e com o fazer musical. Sua obra continua a ter público porque, como Próspero em A Tempestade, seu projeto é agradar. Ele sempre pensa em seu público, quer traseiros nas cadeiras e quer que desfrutemos de sua música. Ele compõe para nós tanto quanto para si mesmo. Embora isso não faça dele um compositor ''melhor'' que seu contemporâneo Bach, inquestionavelmente faz dele um compositor diferente. Bach passou a maior parte de sua vida no norte da Alemanha, escrevendo para si mesmo e para seus patronos da Igreja. Haendel, por contraste, era um músico do jet set de sua época, viajando por toda a Europa. Mas o desejo de ser um comunicador também marca uma diferença entre Haendel e muitos profissionais da era moderna. Como Benjamin Britten no século 20, Haendel queria ser um músico útil e prático. Onde está esse impulso hoje? Há compositores demais preferindo apenas ficar à tona na academia. Quem se levanta de manhã, hoje em dia, querendo tanto agradar como elevar o público, como Haendel fazia todos os dias? TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

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