Há vagas para moças...

Condomínio Jaqueline, novo filme de Roberto Moreira, acompanha a aventura de uma jovem atriz em São Paulo, onde ganha uma nova, ainda que torta, família

Flávia Guerra, O Estadao de S.Paulo

29 de julho de 2008 | 00h00

Alguma coisa acontece no coração de Marina, quando ela olha, de sua janela, o cruzamento da Paulista com a Consolação. É que quando ela chegou por ali, nada entendeu. E talvez continue não entendendo. Atriz em busca de um palco e de um lugar para morar, desfilou sua deselegância discreta pelas esquinas de dura poesia concreta da metrópole que nunca dorme. Marina olha da janela do Condomínio Jaqueline, o prédio que, com esse nome de menina, virou mesmo uma mãe para essa atriz que migrou do interior para a capital, perseguindo o mesmo sonho de tantos outros na ?cidade grande?: uma nova vida.A toada não poderia ser mais clichê. Nem mais verdadeira. Marina é protagonista do novo longa de Roberto Moreira, Condomínio Jaqueline, que acaba de encerrar a fase de filmagens e deve estrear no início do ano que vem. Com seu filme de estréia, Contra Todos, Moreira levou mais de dez prêmios em festivais nacionais e internacionais. Não por acaso, Coração da Selva é o nome de sua produtora. Não por acaso, Marina é fictícia e ganha vida pelas mãos da atriz Silvia Lourenço. Marina poderia ser real. Mas quem disse que não é? Quantas Marinas não desfilam por dia nas ruas paulistanas? Moreira tem olhar agudo sobre a vida na metrópole. E provou isso em seu primeiro filme, quando retratou um universo familiar digno de Thomas Hobbes. Pintou em cores cruas a degradação de uma família da periferia.Agora, Moreira centra o foco no ?coração da selva? metropolitana. E, em vez da solidão confortável de São Paulo, é um universo mais aconchegante que a protagonista encontra nas esquinas mais caóticas do País. "Ela chega e não tem ninguém. Vai morar no prédio, começa a conhecer pessoas, divide o apartamento com uma advogada. Tudo o que tem é o quartinho com um colchão. Ao mesmo tempo, as pessoas começam a adotá-la. Há a antiga moradora (vivida pela diva Maria Alice Vergueiro), o zelador (Ailton Graça), o pessoal da cena noturna, como a cantora Justine (Danni Carlos)."Foi pensando nesses tipos fictícios e reais que Moreira escreveu o argumento, em parceria com a produtora Geórgia Araújo e a própria Sílvia Lourenço. O roteiro final é assinado por Anna Muylaert. Mas por que Jaqueline? "É nome que remete aos anos 60, quando o prédio e a cidade ganharam ares cosmopolitas. Remete também a Jackeline Onassis. Sempre pensei nela em um Channel desfilando por um prédio que teve glamour no passado", conta Moreira.Assim como o gigante (o prédio é o Edifício Anchieta, que abrigou o antológico Bar Riviera) que acolhia a equipe do filme em uma madrugada fria, Condomínio Jaqueline abriga múltiplas unidades de temas. "A história principal é a saga dessa jovem atriz que quer ?conquistar a cidade grande?. O filme fala dos tropeços e esbarrões dela ao chegar", explica o diretor. "Mas é um multiplot. Há multiassuntos. Ela vai morar nesse prédio e lá conhece muita gente. É sobre a história dessas pessoas e de tudo que ocorre em volta dela", completa.Mais que ?filme descolado?, Condomínio faz um painel da fauna que habita a selva paulistana. "É um retrato dessa juventude de 20 a 30 anos que circula pelas mesmas ruas que os personagens. Tudo gira na vizinhança. Na Augusta, Consolação, Paulista. Esse é nosso universo", comenta a jovem Sílvia Cruz, responsável pela produção comercial do filme. "Tem a jovem advogada, a jovem atriz, a jovem poeta. É a cara dos jovens paulistas, sinônimo desta vida urbana. A cidade absorve essa diversidade e, ainda que dura, acaba virando o segundo lar de todos. Aqui, as pessoas acabam construindo laços tão, ou até mais, fortes quanto os familiares", reflete Moreira.Nesse universo multifacetado, o que mais poderia ?retratar com fidelidade?? esses personagens? Quadrinhos. Por isso, Condomínio Jaqueline ganha uma HQ. Mais que plano de divulgação, criar uma série em quadrinhos inspirada em um filme é feito inédito no cinema nacional. "O que há é filme inspirado nos quadrinhos. O contrário nunca houve", comenta Papito, cartunista responsável por dar vida ?no papel? às feições de Marina.Na onda das mídias sem fronteiras que tanto rege a vida dos jovens de hoje, Condomínio Jaqueline vai virar também série de TV. Moreira já tem experiência na área. Dirigiu alguns episódios de Antônia, série que nasceu a partir de Antônia - O Filme, de Tata Amaral. "A série deve começar onde acaba o filme. A partir do momento em que os personagens já são conhecidos do público, é hora de contar com mais detalhes a vida de cada um", adianta Moreira.

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