Há sempre um vírus num cinema bem perto de você

Tomara que a gripe suína não inspire um blockbuster, porque a maioria dos disaster movies viróticos é de baixa qualidade

Sérgio Augusto, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

Os cinemas do México já foram liberados. Epidemia de gripe suína, agora, só na tela, torcem as autoridades sanitárias locais, esperançosas de que apenas em filme o vírus do H1N1 volte a fazer vítimas. É possível. O cinema não costuma desprezar o appeal sadomasoquista de toda e qualquer pestilência. Lembram-se da febre hemorrágica Ebola, detectada no antigo Zaire (atual República Democrática do Congo), em 1976? Vinte anos depois ela chegou a um cinema perto de você, com Dustin Hoffman e uma equipe de denodados auxiliares tentando evitar que ela se espalhasse por toda a América, em Epidemia (Outbreak).Mas se nenhum filme específico a gripe suína inspirar, salvo algum documentário de Michael Moore sobre a manipulação do pânico coletivo (visando desviar a atenção das denúncias sobre o envolvimento do governo Bush em torturas e aumentar as vendas da droga antiviral Tamiflu, patenteada por uma firma que tem na direção o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld), sua falta não será sentida. Primeiro, porque a maioria dos disaster movies viróticos é de baixa qualidade. Segundo, porque a gripe inadequadamente apelidada de suína não fez os estragos previstos e temidos, a não ser, é claro, nos planos de alguns produtores de cinema oportunistas.Que obra marcante sobre doenças epidêmicas o cinema nos deu? Provavelmente nenhuma. Ou apenas uma. Nunca revi A Máscara da Morte Vermelha, estilizada adaptação do homônimo conto de Edgar Allan Poe assinada por Roger Corman em 1964, com Vincent Price comandando o tenebroso baile de máscaras no castelo de Próspero, razão pela qual não discuto com quem a coloca no topo da lista das melhores do gênero, privilégio que ainda reservo para Os 12 Macacos, de Terry Gilliam.Nem aqueles, raros, que pouco se entusiasmaram com Morte em Veneza, de Luchino Visconti, ousariam reduzi-lo a "um filme sobre o cólera". Em sua transmigração cinematográfica, A Peste perdeu não apenas o seu pano de fundo original (o norte da África) como pujança dramática e metafórica do romance de Albert Camus. Foi bem menor o prejuízo de Somerset Maugham, nas duas versões, sobretudo na segunda (O Despertar de uma Paixão, de John Curran, 2006), que seu romance O Véu Pintado suscitou. Mais articulado em torno de uma epidemia de cólera (num vilarejo da China dos anos 1920) do que a novela de Thomas Mann (ambientada na Veneza do início do século passado), O Véu Pintado não tinha muito o que perder numa adaptação para o cinema. Acredita-se que filmes sobre flagelos epidêmicos cumpram um papel catártico e, mesmo, didático, por conta de suas lições sobre a importância de medidas preventivas e a força da generosidade, da compaixão e das ações solidárias no enfrentamento da crise. Os temores e apreensões que alimentam (num futuro imprevisível, um vírus resistente a todas as vacinas conhecidas varrerá a humanidade da face da Terra ou a transformará numa raça de mortos-vivos, como os dos thrillers horroríficos de George A. Romero, ou em multidões de cegos como os do romance Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, adaptado ao cinema por Fernando Meirelles) costumam ser amenizados por uma mensagem, ainda que tênue e, às vezes, ambígua, mas sempre reconfortante, de esperança: alguém há de se salvar, para servir de exemplo e elo perdido, quando não de cobaia, para que a humanidade sobreviva.Foi assim com o herói de Eu Sou a Lenda, clássico da ficção científica de Richard Matheson já filmado três vezes, a última há dois anos, com Will Smith resistindo a um pandêmico vírus vampirizante, que antes atormentara Vincent Price (Mortos que Matam, 1964) e Charlton Heston (A Última Esperança da Terra, 1971); e também com o intrépido personagem de Clive Owen em Filhos da Esperança (Children of Men, 2006), que esconde e protege a última mulher grávida do planeta, assegurando a sobrevida do homo sapiens e da fertilidade, ameaçados por uma praga de origem ignorada.Uma lúgubre atmosfera de paranoia e isolamento é comum a todos eles. Nas ruas, caos e destruição: casas e prédios abandonados, lojas saqueadas, lixo acumulando-se nas calçadas. Os que logram escapar da contaminação buscam refúgio em remotas cavernas e outros recônditos esconderijos, como Robinson Crusoés apocalípticos atormentados por medonhas ruminações. Será isto um castigo divino? Como admitir que a cultura que o homem demorou séculos para desenvolver esteja desaparecendo rapidamente ou tenha desaparecido por completo? O que fazer ao se defrontar com um amigo ou parente transformado em vampiro ou zumbi? Matá-lo sem pestanejar? Como proceder para que as pessoas acreditem que o mundo realmente corre perigo? A última dúvida é crucial, porque tudo dela depende. Em 2035, o presidiário de 12 Macacos, encarnado por Bruce Willis, volta ao passado para tentar evitar que um vírus letal mate 5 milhões de pessoas e descobrir quem o espalhou em algum ponto da América, em 1996, e acaba confinado a um hospício, em 1990.Na distopia de Gilliam, a culpa era de uma organização terrorista chamada Exército dos 12 Macacos. Embora o cinema já tenha explorado os danos provocados por vírus vindos do espaço, trazidos, inadvertidamente, para a Terra, como o de O Enigma de Andrômeda, 1971, ou daqui levados, irresponsavelmente, para outro planeta, como a catapora mortífera de O Planeta Vermelho, 1980, mais aqueles que tiraram o sono dos agentes Mulder e Scully de Arquivo X e robotizaram os terráqueos de Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956) e de seu recente remake, Invasores, com Nicole Kidman e Daniel Craig, de modo geral é o próprio ser humano quem produz, inocula, vigia precariamente e dissemina os microrganismos do mal. Ora, agindo sozinho (como o vilão interpretado por Telly Savallas em 007 a Serviço de Sua Majestade) e à sorrelfa (como o general encarnado por Donald Sutherland em Epidemia), ora em grupo (como os terroristas de 12 Macacos), ora a serviço de um governo ou de uma grande corporação.Desde a década de 1950 que cientistas descuidados ou inescrupulosos fazem lambança em laboratórios privados e governamentais, deixando escapar ou provocando a evasão de pragas dignas da Caixa de Pandora. A devastação começa, quase sempre, entre as provetas. Em O Hóspede Maldito (Resident Evil, 2002), um vírus mutante transformava os funcionários de um laboratório em mortos-vivos canibalescos. Em The Sickness, rodado no ano passado, cinco pessoas ficavam presas num centro de pesquisas de doenças contagiosas, e uma delas acabava contaminada por um vírus resistente a qualquer medicamento conhecido ou em testes. Em meio a tantos horrores e sobressaltos, de baixíssimo, quase nulo, teor artístico, pois a estética trash em quase todos predomina, um e outro vislumbre de "seriedade" ou "consciência crítica". Os bunkers de luxo em que se encastelam os não contaminados mais ricos de Terra dos Mortos (Land of the Dead, 2005) reforçam a desconfiança de que George A. Romero também pretendeu fazer um filme sobre o apartheid social nos grandes centros urbanos. Mas os aficionados do cineasta devem ter achado esse detalhe irrelevante, se é que o perceberam. Por falar em mortos-vivos, produziram em 2008 uma comédia de ficção científica misturando o governo Bush com um vírus "patrocinado" pela Casa Branca e dançarinas de striptease. Título: Zombie Strippers! Chegou aqui direto em DVD e virou cult movie dos cinéfilos pipoqueiros. É uma novidade no gênero, na medida em que mistura, como aquelas loucuras dos irmãos David e Jerry Zucker, grossura e sátira política, com uma pitada de safadeza, não fosse sua estrela a atriz pornô Jenna Jameson. A ação se passa em 2012, quando Bush é reeleito pela quarta vez, tendo como vice Arnold Schwarzenegger, e os Estados Unidos estão em guerra com o Iraque, a Síria, o Líbano, a Venezuela, a França e (não me pergunte por quê) o Alasca. Para compensar a perda de soldados mortos durante o(s) conflito(s), o governo americano inventa um vírus capaz de ressuscitá-los, para com eles formar um novo exército. Mas um vacilo num laboratório do Nebraska põe tudo a perder, e o vírus vai parar num clube de striptease. Só falta agora um musical. Que tal "Contaminando na Chuva"?

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