Há pessoas imprescindíveis

Quando cheguei, soube que o poeta H. Dobal tinha morrido havia poucas semanas. Senti. Falei dele numa crônica há quatro anos, uma das belas descobertas de minha vida. Dobal está enterrado no cemitério São José, onde se encontra também Torquato Neto, outra perda. Torquato tinha 28 anos e se matou no dia do aniversário. Jovem, uma obra imensa e canções para Gil, Caetano, Edu Lobo, todo mundo que conta. Vim para mais um Salão Literário do Piauí, Salipi. Este foi o sexto, dedicado a Antonio Francisco da Costa e Silva, poeta, pai de Alberto da Costa e Silva, diplomata e historiador. Os anteriores homenagearam Mario Faustino, H. Dobal, O.G. Rego de Carvalho, Assis Brasil, Torquato Neto. Feira de livros, mas também palco de debates com cinco sessões diárias lotadas. Cinco. O auditório é para 800 pessoas e ainda colocavam cadeiras extras.Houve oficinas, shows, contadores de histórias, lançamentos de livros, fóruns temáticos, espaço criança, circo das letras. Se em cada cidade grande acontecesse um Salipi, a situação seria outra. São quatro os coordenadores: Cíneas Santos, Wellington Soares, Nilson Ferreira e Luiz Romero. Lutam por patrocínios, parcerias convênios, hotéis, passagens aéreas. E ainda sofrem dissabores. Como um jornal é parceiro, os outros boicotam. Ou seja, entrevistam os escritores, não citam o Salão. Dizem: De passagem por Teresina, o escritor fulano de tal. Todo mundo sabe que o dito-cujo veio para o Salipi, mas a divulgação se perde.Este ano teve Assis Brasil, Antonio Carlos Secchin, Domicio Proença Filho, Marcio Souza, Thiago de Mello, Evanildo Bechara, Washington Novaes, Chico Filho, Frei Betto, Salgado Maranhão, Geraldo Carneiro, Márcia Moraes entre outros, como se diz. Como é inverno, Teresina não ostentava a quentura do período que eles chamam de b-r-o-bró (setembro, outubro, novembro e dezembro). Estava fresco, 30 graus. A cidade é esparramada, aconchegante, arborizada. Plana, o olhar alcança a imensidão. Acompanhado por Washington Novaes, fui à embocadura dos Rios Poti com o Parnaíba, silenciosos, mansos. Em um restaurante flutuante comemos casquinha de caranguejo e tomamos cerveja. Em nenhum outro lugar do mundo existe cerveja tão gelada. O silêncio absoluto era quebrado pelo chapinhar de um remo na água, um pescador solitário atravessava para o Maranhão.Figura marcante foi o cubano Francisco Lopez Sacha, por todos tratado de Sacha. Professor de teatro, culto, bem-humorado, divertido, sarcástico, ora falava das músicas dos filmes de Glauber Rocha e tentava cantar em portunhol ''Te Entrega Corisco, /eu não me entrego não'', ora nos contava a odisséia de Cabrera Infante, excelente escritor, mas que compôs um personagem, o do anticomunista feroz. Dali saltava para Pedro Gutierrez ou Alejo Carpentier. Na noite em que falei sobre inspiração na obra literária, ele se sentou e discordou de mim com poesia e graça.Quando Sacha sentava-se para comer, Domício Proença (outro conversador de escol) e eu corríamos para ficar na frente. Com que prazer ele se dedicava ao prato, com que alegria via o garçom depositar filé, picanha, e todas as carnes disponíveis. Sacha brincava: Já comi carne pelo primeiro semestre, amanhã comerei pelo segundo. Ria, ironizava Cuba, ao mesmo tempo que admira, ama, podia ir embora, não vai, é seu país.Ir a Teresina significa obrigatoriedade em dois lugares: à casa de sucos de Abrahão e à carne-de-sol do restaurante São João. Os sucos descobri por meio de Wellington Soares, contista e cronista das coisas da cidade. Seus textos desvendam Teresina, neles vi a descrição de Abrahão da Silva Gama, maranhense que chegou há 50 anos e desde então mantém a casa mais concorrida que se conhece. Pobre, rico e remediado ali se encontram. Sucos de dezenas de frutas, bacuri, buriti, cajá, tamarindo, abacate, abóbora. Sim, abóbora, nem imaginam a delícia. Ao saber que éramos um grupo de escritores, ele saiu de trás do balcão, cumprimentou cada um com uma frase. É o Otto Mara Resende local. Quando Márcia, minha mulher, estendeu a mão e sorriu, ele disse: ''A senhora vai me permitir agasalhar esse teu sorriso na minha memória para que ele possa iluminar o resto dos meus dias.'' Diz Wellington que Abrahão pertence a esse grupo de reduzido de pessoas imprescindíveis. Não saberia definir melhor. Torquato e Dobal também eram imprescindíveis.Do Abrahão fomos para a carne-de-sol. Meio-dia e o lugar começa a encher. Os carros vão passando, parando, é point. Sentamo-nos e Wellington avaliou e pediu ao garçom: ''Um quilo de carne.'' Assim se pede. Um quilo, meio quilo. A carne é tenra e saborosa e vem envolta numa camada de manteiga (líquida) de garrafa. Acompanhada pela mandioca que se desfaz, macia, a paçoca e o baião-de-dois. Assim como há pessoas imprescindíveis, também há comidas imprescindíveis.

Ignácio de Loyola Brandão, Teresina, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2008 | 00h00

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