REPRODUÇÃO
REPRODUÇÃO

Gustavo Speridião abre, no Rio, a mostra 'Lona'

Obra do artista carioca é construída com lirismo e engajamento

Roberta Pennafort/RIO, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2015 | 16h00

Gustavo Speridião não isola seu trabalho artístico de seu engajamento político-partidário. “Não existe separação entre o eu-lírico e o ex-militante, seria como existir duas vezes. Não tenho chave de mudança”, explica o artista plástico carioca de 36 anos, entre duas colagens com cartazes de movimentos sociais brasileiros, latino-americanos e europeus, e uma obra em que se lê uma frase do capítulo Arte Revolucionária e Arte Socialista do livro Literatura e Revolução, do marxista russo Leon Trotski (1879-1940) – a qual, ele garante, sintetiza suas reflexões sobre o assunto.

Na exposição Lona, que Speridião abre neste sábado, 23, na Galeria Anita Schwartz, no Rio, estão 18 trabalhos inéditos, de grandes dimensões, em lonas de algodão afixadas diretamente nas paredes. Suas inquietações e críticas a questões relativas às relações de trabalho e aos antagonismos entre classes estão em pinturas e conjuntos de panfletos coletados pelo mundo, entre 2007 e 2014.

Quando expõe fora, coletiva ou individualmente – esteve na França, Bolívia, Inglaterra, no Japão –, olha também para o que está acontecendo a seu redor. Nessas andanças, recolheu material de divulgação de manifestos pró-Palestina, de trabalhadores da Grécia em crise e de protesto contra o assassinato de estudantes mexicanos e sobre a prisão de manifestantes anti-EUA durante a visita do presidente Barack Obama ao Rio, em 2011.

“Queria fazer um trabalho panfletário intencionalmente, que é visto pela academia de arte como algo ruim. Mostrar isso com o gesto pictórico. Até numa tela gráfica há uma carga política muito grande, porque para se chegar à arte abstrata houve muita luta política de vanguarda. Os artistas contemporâneos querem fugir disso, mas quero 32 mil anos de pintura”, considera, apontando as lonas pintadas de vermelho, branco e preto e aludindo à idade de achados pré-históricos em cavernas.

No segundo andar da galeria, está sua coleção de fichas cadastrais de funcionários de uma fundição já falida, abandonada numa rua degradada do centro do Rio, perto da casa em que morava com a mãe, artista, e o pai, médico. A parede exibe um mosaico de rostos e dados como nome, filiação, impressão digital, ocupação e salário.

São registros de várias gerações de empregados, dos anos 1910 aos 1980. Ele guarda o material há dez anos. “Minha mãe achou no lugar onde ela guardava o carro e me falou: ‘Você vai adorar’. Gosto de lixo. Aqui, você vê a história de cada um. Quem constrói o mundo são os trabalhadores, não a burguesia”, acredita Speridião, que aderiu às manifestações de rua dos últimos anos. Chocou-se com o comportamento policial. “Foi um nível de violência tão intolerável que as pessoas desistiram de participar.”

Na mesma sala do segundo andar, o desabafo “Maldita burguesia!” grita em preto na lona branca. “Provavelmente, esse trabalho num espaço para a classe trabalhadora teria outro efeito. Aqui é de escárnio da burguesia, com ela própria rindo de seu caráter ridículo”, aponta o artista, que cursou belas-artes na UFRJ, trabalhou no Museu Nacional de Belas Artes e para a própria Anita Schwartz. “O melhor trabalho da vida”, no entanto, ele considera o que teve como “peão de obra”.

Artista em ascensão em sua geração, ele não vê contradição entre seu discurso e seu lugar na arte contemporânea. “Existem os que acreditam que a arte deve ser pública e outros que acham que é uma coqueluche diante da praia. Eu não sei para quem é o que eu faço, mas, como trabalhador, eu sei que, no capitalismo, todo mundo tem o seu patrão”, acrescenta Speridião, cuja mostra fica em cartaz até o dia 4 de junho. 

Mais conteúdo sobre:
Artes

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.