Gullar inédito

Depois de dez anos longe dos versos, o escritor Ferreira Gullar, autor do Manifesto Neoconcreto, que completa 50 anos, volta à poesia com o livro Em Alguma Parte Alguma

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

O perfume do jasmim pode não ser inspirador para a maioria das pessoas, mas, para o poeta Ferreira Gullar, é motivo de epifania - ao sair, certa noite, da casa de Cláudia Ahimsa, sua companheira e também poeta, ele foi acometido por um incontrolável impulso, só dominado quando surgiram os versos do poema Desordem.: "... o jasmim, por exemplo,/ é um sistema/ como a aranha/ (diferente do poema)/ o perfume/ é um tipo de desordem/ a que o olfato/ põe ordem/ e sorve...".Experiências como essa, que não recriam a realidade mas a reinventam, é que transformam o cotidiano do poeta e, de resto, da grande poesia brasileira. Afinal, depois de dez anos da publicação de seu último livro de versos, Muitas Vozes, considerada a melhor obra de 1999, Ferreira Gullar está finalizando Em Alguma Parte Alguma, com poesias inéditas que a editora José Olympio pretende publicar ainda neste primeiro semestre. "Até agora, ele já escreveu 50 poemas, que cobririam cerca de 80 páginas", comenta Maria Amélia Mello, editora da José Olympio e principal responsável pela qualidade das obras publicadas. "Mas Gullar acredita que ainda vai escrever alguns. Como diz: ?aguardando o poema que falta?..."Algumas poesias são longas, outras nem tanto - Rainer Maria Rilke e a Morte, por exemplo, ocupa seis páginas. O tempo de gestação, no entanto, parece ter diminuído. Se dez anos separam o novo livro do anterior, o período entre Barulhos e Muitas Vozes foi ligeiramente maior, de doze anos. "Criar versos exige um esforço diferente do que escrever ensaios, crônicas ou críticas", afirma Gullar que, apesar de se desdobrar em múltiplas funções (também pinta e faz colagens), garante ser poeta na essência. As demais funções, ainda que não as desmereça, apenas ocupam seu tempo enquanto não está tomado pela poesia.Por conta disso, apesar da longa carreira (estreou com Um Pouco Acima do Chão, em 1949, escrito na adolescência mas hoje rejeitado por ele pois foi antes de descobrir a poesia moderna), o maranhense Ferreira Gullar tem uma produção escassa na média (dez poemas por ano, levando-se em conta as cerca de 500 páginas acumuladas desde A Luta Corporal, de 1954, por ele considerado sua verdadeira estreia), porém única na qualidade - bastaria Poema Sujo como exemplo, escrito durante seis meses de 1975, quando amargurava um exílio forçado em Buenos Aires, e que expõe as vísceras da poesia na tradução de um dolorido desabafo.Com Em Alguma Parte Alguma, Gullar se renova. O poeta que passou do soneto camoniano ao poema em prosa, do verso livre ao poema pré-concreto, mantém a tradição de criar uma produção multifacetada. "Custo a escrever e só publico o que realmente gosto."

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