Guignard é acolhido em terras gaúchas

Fundação Iberê Camargo tem mostra do fluminense e de três artistas do Sul

Elder Ogliari, Porto Alegre, O Estadao de S.Paulo

15 de dezembro de 2008 | 00h00

Uma exposição de obras do pintor fluminense Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) promete tornar-se uma das grandes atrações culturais do verão em Porto Alegre. São 43 desenhos e pinturas de toda a carreira do artista que a Fundação Iberê Camargo exibe até 8 de março, com acesso gratuito. Entre as preciosidades da mostra estão duas Noites de São João, ambas de 1942, cedidas pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA); Família no Parque, de 1940, do acervo do Museu Municipal Juan Blanes, de Montevidéu; Família de Fuzileiros Navais, de 1938, e Três Mulheres, de 1930, ambas pertencentes ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP).A montagem de uma retrospectiva de Guignard no museu, inaugurado em maio deste ano para guardar o acervo e a memória de Iberê Camargo, também remete à ligação entre os dois artistas. O gaúcho foi aluno do fluminense, entre 1940 e 1942 e, conforme Mônica Zielinsky, coordenadora do programa de catalogação da obra de Iberê, é possível que tenha desenvolvido a luminosidade difusa e ao mesmo tempo expressiva da sua pintura com Guignard, a quem considerava um mestre.Denominada Um Mundo a Perder de Vista, a nova exposição da Fundação Iberê Camargo tem um auto-retrato, retratos, naturezas-mortas, peças de uma via-sacra, cenas urbanas e familiares e muitas paisagens montanhosas, pontilhadas por igrejas e vilas coloniais, trens, festas e balões juninos em tons coloridos. O ponto de vista pode não estar bem definido, mas é sempre do alto. O horizonte quase sempre se mistura ao céu, impedindo que se saiba onde termina um e começa o outro."Enquanto outros artistas de sua época buscam um acabamento quase industrial, para formas geométricas, Guignard retrata um mundo que parece que vai acabar, embora nunca tenha proclamado isso", comenta o curador da mostra, o crítico de arte paulista José Augusto Ribeiro. "Ele arruma soluções formais que poucos pintores arrumavam no Brasil da década de 40."Essas soluções, obtidas da diluição da tinta e da distensão das formas, são consideradas por Ribeiro como "muito refinadas" e contrariam analistas que tentam conceituar a arte de Guignard como ingênua. Para o curador, a temática repetitiva revela que, em muitos momentos, Guignard deixou o assunto em segundo plano para se dedicar ao problema da pintura, em busca de novas perspectivas técnicas.Guignard nasceu em Nova Friburgo (RJ), em 25 de fevereiro de 1896. Em 1907, mudou-se para a Suíça, com a família. De 1915 a 1923 freqüentou a Real Academia de Belas Artes de Munique. Depois de ampliar estudos e de participar de exposições pela Europa, voltou ao Rio em 1929, fazendo da cidade a base para suas atividades artísticas. Em 1944, a convite do então prefeito Juscelino Kubitschek, foi morar em Belo Horizonte para fundar a Escola Municipal de Belas Artes. Acabou absorvendo aspectos da arte colonial em sua obra. Morreu em 26 de junho de 1962, na capital mineira.CONTEMPORÂNEASAo mesmo tempo em que exibe a retrospectiva de Guignard, a Fundação Iberê Camargo abre espaços para três artistas contemporâneas gaúchas que já conquistaram projeção no mundo das artes na exposição Lugares Desdobrados. As obras, de Elaine Tedesco, Karin Lambrecht e Lucia Koch, estão no quarto andar do prédio, mas também se espalham por intervenções em clarabóias, janelas e rampas.Elaine Tedesco recria, ao seu estilo, um observatório de pássaros semelhante aos existentes no Uruguai, a partir do qual o visitante pode visualizar boa parte do museu e das obras em exibição.Lucia Koch instalou filtros nas janelas e clarabóias do prédio, aproveitando a luz para criar formas e também oferecendo novas visões para a paisagem externa, especialmente o Lago Guaíba, à beira do qual está o museu.Karin Lambrecht emoldurou em lâminas de acrílico 77 cruzes banhadas em sangue de carneiros abatidos em Israel, acrescentando às chapas caligrafias que remetem às 77 gerações da genealogia de Jesus Cristo, segundo o Evangelho de São Lucas. A artista também expõe quatro aquarelas, uma pintura e dois trabalhos produzidos em sangue sobre papel.

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