Guia de entrada para a obra do compositor

Produção de Carter exige do público curiosidade pelo novo e audição ativa

, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Não ouça nada de Elliott Carter antes de assistir ao DVD A Labyrinth of Time, de Frank Scheffer (Ideale Audience). São 90 minutos de pura magia, que nos descortinam todo o universo do compositor. Sua biografia é incrível. Em 1921, aos 13 anos, ele estava com o pai na Alemanha de Weimar; ainda na década de 20, assistiu à estréia da Sagração da Primavera, de Stravinski, em Nova York, e aquela obra o fez decidir dedicar sua vida à composição musical; nos anos 30, transferiu-se para Paris, onde estudou com Nadia Boulanger, a quem adora.Aí você vai dizer, já sei: Carter é só mais um entre centenas de compositores americanos que estudaram com ela e depois dividiram-se entre a adoção de linguagens neoclássicas via o Stravinski de Pulcinella ou a música serial derivada de Schoenberg. Não. Ele desenvolveu uma linguagem pessoal, que confronta as linguagens da vanguarda européia radical com uma plataforma estética norte-americana. Com isso, ganhou enorme respeito na Europa. Pierre Boulez, por exemplo, diz sobre ele: "É um homem que exige muito de si mesmo. E exige muito de seu público também. Pede compromisso, participação, envolvimento, intensidade - atitudes que são importantes. Não quer agradar imediatamente, não busca o fácil. Respeito-o muito porque ele vive num ambiente que busca desesperadamente o fácil. E rechaça isso totalmente. Por isso temos que lhe ser agradecidos. É certamente um modelo para a música americana".Sobre seu concerto para piano, Charles Rosen derrama elogios. Ele escreveu um livro sobre a música para piano de Carter e gravou um CD excepcional, em 1997, pelo selo Bridge. "As obras são um reflexo de nossa experiência moderna. Este reflexo é muito interessante em Carter porque há uma grande reticência. Não me lembro de nenhuma obra de Carter que termine com um grande estrondo. Há sempre a sensação de que a voz individual permanece cantando sozinha, abandonada." Você pode ouvir o concerto na gravação de Ursula Oppens, em CD com a Orquestra de Baden Baden (Arte Nova/Sony).Dos europeus ele importou a concepção de uma música sem concessões, que necessita sim de ouvidos preparados para chegar a ela. E da América, aprendeu a olhar para o mundo de sons que o rodeia. Realidade americana quer dizer, por exemplo, o tema de sua única ópera, intitulada What Next?, composta em 2000. Enredo: seis pessoas acabam de sofrer um acidente de carro. Estiradas no asfalto, recobram a consciência, mas não a memória. Alguém aí imagina tema mais contemporâneo e americano do que um acidente de carro?Depois que você curtir bem o DVD, adentre com segurança este mundo musical difícil, complexo, porém pleno de música de alta qualidade. Comece com a ópera citada, que foi lançada pela ECM em 2003. Você poderá, então, aventurar-se pelas obras mais desafiadoras. O primeiro quarteto de cordas, por exemplo, obra imensa, de quase 50 minutos, escrita por Carter em 1951, depois de um longo retiro voluntário no deserto do Arizona. Pois é. Ele trocou o charme de Paris pelo sol a pino do Arizona. Você pode experimentar o álbum duplo excelente do Juilliard String Quartet (Sony), gravado em 1991. Os violinos, a viola e o violoncelo - cada um segue um discurso autônomo. Os entrecruzamentos e choques sonoros são inevitáveis. "Ande pela rua", diz Carter. "Nosso mundo sonoro está muito próximo de minha música." Carter exige uma escuta ativa, a curiosidade e capacidade de deixar-se envolver neste intrincado universo musical."No final", encerra Carter no delicioso DVD, "o que vivemos é uma estranha mistura, uma rara confusão, que desaparecerá, já que muita gente está mais consciente - e as pessoas terão que ser assim porque a sociedade é mais complicada, mais povoada e porque há mais coisas que acontecem. As pessoas deverão ser mais inteligentes e astutas. Aí então elas gostarão de minha música". Um meio sorriso maroto encerra uma declaração que se assemelha demais àquela feita por Arnold Schoenberg nos primeiros anos do século 20, quando formulou a música dodecafônica. "Com isso, a Alemanha garante mais cem anos de hegemonia", proclamou. E acrescentou que em um século sua música seria entendida por todos. Errou feio. Um século depois, Carter é obrigado a recorrer ao mesmo argumento gasto. Seria mais razoável admitir que músicas como a sua são para poucos . Mas quem tem 100 anos e está vivinho da silva, produzindo muito e absolutamente lúcido, tem o direito de se manter coerente. Já está acima do bem e do mal.

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