Guardiães do bom samba

Com Marisa Monte, Velha Guarda da Portela faz shows e conta histórias em filme

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

26 de agosto de 2008 | 00h00

Marisa Monte faz hoje pela Velha Guarda da Portela, esses guardiães do bom samba, o que Paulinho da Viola fez cerca de 40 anos atrás - e continua de outra forma. O trabalho dos dois - que se encontram em momentos felizes no documentário O Mistério do Samba, que estréia sexta-feira - pela preservação daquele gênero de samba genial, que tende a desaparecer, segundo os próprios integrantes da Velha Guarda, vai muito além dos discos que produziram e lançaram, respectivamente, em 1970 (Portela, Passado de Glória) e 2000 (Tudo Azul). Hoje e amanhã, no Sesc Pinheiros, e sexta no Circo Voador (no Rio), Marisa participa do show que marca o lançamento do filme, ao lado da Velha Guarda e dos jovens portelenses Teresa Cristina e Diogo Nogueira. Os ingressos estão esgotados. Marisa vai cantar com a Velha Guarda quatro músicas: Volta (inédita de Manacéa, que está no filme), Volta Meu Amor (Manacéa/Áurea Maria), que está em Tudo Azul, Sofrimento de Quem Ama (Alberto Nolato), do álbum produzido por Paulinho, e Esta Melodia (Bubu da Portela/Jamelão), que gravou em Anil, Amarelo, Azul, Cor-de-Rosa e Carvão.Outros dos 24 sambas que estão no roteiro - parte do qual a reportagem do Estado teve a oportunidade de ver/ouvir num ensaio no Estúdio Floresta - são Vivo Isolado do Mundo (Alcides Dias Lopes), Recado (Casquinha/Paulinho da Viola), A Chuva Cai (Argemiro/Casquinha), Tudo Azul (Ventura), Lenço (Chico Santana/Monarco), O Mundo É Assim (Alvaiade). Não falta, claro, o "hino" Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida, de Paulinho da Viola. Mauro Diniz, que toca na banda de Marisa, canta algumas músicas de Monarco, que está doente e não vai poder participar dos shows em São Paulo.Nem tudo o que está no filme (com cerca de 50 sambas) está no show. E vice-versa. "O show tem intersecção do trabalho de todos nós com eles, diz Marisa. Teresa Cristina, por exemplo canta uma música do Candeia que ela gravou", diz Marisa. Diogo, filho do grande João Nogueira (1941-2000), é novo destaque da escola. Os sambas-enredo escolhidos para os dois últimos carnavais foram os dele. Mas a escola de samba, ao contrário do que atravessa as fronteiras para o imaginário nacional, não vive só em função do carnaval.O filme de Carolina e Lula mostra justamente o outro lado, o do universo cotidiano que tem no samba o elo mais forte entre seus adoráveis personagens, como Surica, que considera Paulinho da Viola, o "cartão de visitas" da Portela. Ela também acha que esse gênero de samba, o de terreiro, tende a acabar. "Marisa conseguiu resgatar alguns sambas que eram inéditos, mas ainda tem muita coisa." Sem desmerecer as outras velhas-guardas, a cantora Surica diz que tem orgulho de pertencer a essa ala da Portela e de preservar a arte de sambistas como Manacéia (1921-1995) e Candeia (1935-1978). "Dizem que não existe velha-guarda igual à nossa porque só cantamos músicas dos próprios compositores da Portela. Isso é uma jóia rara. E também temos uma disciplina que mantemos até hoje.""A nossa sorte é que existem pessoas de um nível de Marisa Monte, que têm o cuidado de preservar essa coisa com respaldo muito grande", diz o cavaquinista Mauro Diniz. "Os veículos de comunicação não dão muita oportunidade para esse tipo de samba, você não ouve tocando por aí. Você só encontra em algumas rodas de samba do subúrbio, como a da Tia Doca." Ele diz que a safra de compositores das escolas está ficando reduzida, falta "material de reposição". A concorrência com o funk e o hip-hop entre os jovens também prejudica a manutenção da tradição de bons sambas. "Antigamente, quando se falava em morro, automaticamente associava com o samba, hoje, no Rio, tem outros movimentos, então fica um pouco dividido."Na opinião da cantora Áurea Maria, filha de Manacéia, o que faz a história da Portela ser tão grande é "a essência de cada um e também as melodias lindas, que são uma fonte de realimentação". "Isso rejuvenesce todo mundo. Acho que isso é um dos mistérios do samba."Marisa afirma que poucas coisas na vida a emocionam tanto quanto a Velha Guarda da Portela. A união musical entre elas remonta a 1991, quando a cantora e compositora convidou as pastoras Surica, Doca e Eunice, para fazerem coro em Ensaboa (Cartola), no disco Mais. Em 1994 foi a vez da Velha Guarda inteira participar de Esta Melodia, no CD Cor-de-Rosa e Carvão. Doca, Surica e Eunice a reencontraram no DVD Barulhinho Bom, em momento emocionante que reaparece em O Mistério do Samba. Marisa também produziu discos individuais de Argemiro Patrocínio (1922- 2003) e Jair do Cavaquinho (1923- 2006), lançados em 2002.O projeto do documentário para o cinema começou paralelamente à produção do antológico Tudo Azul. Amigos de Marisa, os diretores Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda se interessaram pelo projeto e passaram a registrar as imagens e produzir o filme por conta própria. Só no ano passado é que veio patrocínio da Natura, que bancou a finalização e o lançamento.Marisa é o fio condutor do filme e aparece fazendo algumas entrevistas, descobrindo preciosidades (como uma caixa de fitas com sambas antigos de Manacéia, revelada pela filha Áurea) e também cantando nas rodas de samba com a Velha Guarda e Zeca Pagodinho, e em duos com Paulinho da Viola. A cantora esclarece que não se trata de um filme sobre a Portela, nem sobre Oswaldo Cruz, bairro onde nasceu a escola de samba."É um filme muito focado no valor humano, na expressão artística desses sambistas, na maneira de eles se relacionarem com a música, com a arte. Tem vários assuntos importantes: como o samba entrou na vida deles, quais eram suas primeiras referências musicais, como começaram a compor, de onde vinha a inspiração para eles, como eram as profissões deles (já que deixam claro que não tinham a música como principal ocupação), a relação com a escola, o papel da mulher", diz Marisa."Começamos a entrevistá-los sobre assuntos existenciais: sobre solidão, o amor, sobre envelhecer, assuntos relativos à existência de todos nós. O filme é divertido, é leve, mas muito profundo também, porque as pessoas retratadas têm uma experiência muito rica de vida." Daí a quantidade impressionante de sambas antológicos que, como diz Marisa, faz a vida da gente um tanto melhor.

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