Guarde este título, My Magic, e se deixe surpreender

Longa de Eric Khoo fala da relação entre pai e filho e da magia do cinema

Luiz Carlos Merten, Cannes, O Estadao de S.Paulo

24 de maio de 2008 | 00h00

E, no fim da tarde de ontem chegou My Magic. Se é verdade que a tradição aqui em Cannes é de que a Palma de Ouro saia preferencialmente dos filmes exibidos por último, na competição, a expectativa é de que o júri presidido por Sean Penn faça a coisa certa e aposte no filme de Eric Khoo e não no de Charlie Kaufman. My Magic é uma jóia vinda de Cingapura. No fim da exibição, enquanto o diretor e os atores eram aplaudidos no palais (a sessão de imprensa foi também a oficial), jornalistas portugueses comentavam que o selo Wild Bunch havia pressionado a organização. Sem a magia de Khoo não haveria a contrapartida do Che de Steven Soderbergh, muito mais atraente como evento midiático, na Croisette, mas não tão bom, como cinema.Se houve mesmo pressão, foi por boa causa, mesmo que se possa discutir, ética e esteticamente se os fins justificam os meios. My Magic conta a história de um pai e seu filho. O pai vive caindo de bêbado pelos cantos. Logo na primeira cena, bebe uma garrafa inteira e, depois, insatisfeito, começa a mastigar o copo. Sim, você leu direito. Ao longo do filme, esse pai vai beber mais e, para conseguir dinheiro, submeterá o próprio corpo a múltiplas brutalidades. O filho o acusa de falta de atenção e esbraveja contra a mãe, que o abandonou. Khoo encaminha o filme para uma revelação.Talvez seja o tema de My Magic, a revelação, num sentido metafísico e até teológico. Mas a verdadeira maneira de ver esse filme é como um sistema muito racional de pensamento para falar sobre o corpo - e a magia do cinema. Esse pai decadente, um bruto no sentido buñueliano - magnificamente interpretrado por Bosco Francis -, representa a via-crúcis do corpo, que ele macera de todas as formas. A revelação é que esse pai foi um grande mágico, cuja vida se perdeu por causa de uma tragédia e, agora, Eric Khoo vai usar o cinema para tudo lhe devolver - ou realizar, mesmo que fugazmente, o sonho do menino.O menino, interpretado por Jathishweran, somos nós, o público, e o que Khoo quer dizer com My Magic - a suprema revelação, a mais simples e complexa de todas - é que nem as coisas nem as pessoas são o que parecem. É um filme também sobre o cinema. Talvez seja interessante acrescentar que foi rodado em 12 dias (apenas), feito em tamil, língua que o diretor e o roteirista Kim-Hoh, que escreveu em inglês, não dominam, com um mágico profissional que nunca havia feito cinema. Tantas dificuldades têm a ver com a relação entre pai e filho, que tudo precisam superar. Eric Khoo conhece Bosco Francis há mais de uma década. Como ele diz, quis fazer alguma coisa com o amigo, e para ele. Francis é uma força da natureza, ''maior que a vida'', segundo o diretor. O contraste entre ele e a fragilidade do garoto produz uma química que remete a O Garoto e a Ladrões de Bicicletas, respectivamente de Charles Chaplin e Vittorio De Sica. Eric Khoo, que abriu a Quinzena dos Realizadores, há dois anos, com Be with Me, prova que um grande diretor pode se apossar de um projeto de outro e fazer um filme rigorosamente pessoal. Guarde o título - My Magic - e já espere pelo Festival do Rio e pela Mostra de São Paulo.

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