Grupo Folias faz filme com conversa de vizinhos

Ao Pé de Cecília Santa une cenas de peças e depoimentos para analisar inserção da companhia no bairro

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

02 de dezembro de 2008 | 00h00

Há dez anos o grupo teatral Folias D?Arte instalou-se num galpão no bairro de Santa Cecília, na Rua Ana Cintra, bem ao lado do Elevado Costa e Silva, cujo vão, na época, abrigava moradores de rua. Passada uma década, essa parte do chamado Minhocão abriga um terminal rodoviário, o galpão transformou-se em teatro com projeto do cenógrafo e arquiteto J.C. Serroni, e já foi palco de espetáculos premiados como Otelo, Orestéia e El Día Que Me Quieras.Um pouco da história desse grupo, mais especificamente da relação do Folias com o bairro que o acolheu, está agora registrada no longa digital Ao Pé de Cecília Santa, que será exibido hoje, às 21h30, na sala 1 do Espaço Unibanco de Cinema. Com roteiro do ator e dramaturgo Reinaldo Maia e do ator Zeca Rodrigues, este último também diretor, o filme traz cenas de espetáculos e entrevistas com atores, diretores, colaboradores e moradores do bairro.A teatralidade começa pela forma escolhida para trazer depoimentos à tela: todas as entrevistas são feitas pelo ator Dagoberto Feliz sempre como personagem. Por exemplo, é ninguém menos do que ?deus? o entrevistador do padre da paróquia de Santa Cecília, vizinha do teatro - ?deus? foi o papel do ator em Cantos Peregrinos, um musical que recriava criticamente a cosmogonia bíblica. Essa entrevista, por sinal, é um dos bons momentos do longa pelas informações que traz sobre o perfil sociocultural da comunidade. O bem-humorado reverendo começa por revelar seu temor, ao ser designado para o local, de deparar-se com uma igreja esvaziada, de ?muita transitoriedade". Mas, ao fim, mostra evidente satisfação com a atividade intensa da paróquia e o envolvimento de fiéis nas pastorais de apoio aos que habitam, com ou sem teto, o bairro.Há entrevistas fundamentais para entender o pensamento que funda a estética do Folias, como a realizada com a professora Iná Camargo Costa, que faz parte do que eles chamam de conselho consultivo. Além de dar a melhor explicação para a pergunta recorrente - o que é a disputa do pensamento? -, ela chama atenção para o espetáculo Babilônia, cujos personagens são peregrinos em busca de uma cidade ideal, como evidência da influência do novo endereço na arte do Folias. Existem ainda os chamados sócios ou mantenedores, pessoas que contribuem mensalmente, e um deles, Marcos Barisson, fala sobre essa forma de colaboração. "Seria impossível dar voz a todos e, então, buscamos pessoas que de alguma forma representassem diferentes segmentos de relação com o Folias", diz Dagoberto."A idéia inicial era fazer um balanço da conexão do Folias com o bairro, mas o filme foi tomando outros rumos", diz Zeca Rodrigues. Para os que acompanham o trabalho do grupo, o filme propicia um prazer extra que é o de rever cenas memoráveis, como o coro final de Happy End ou o solo da atriz Nani de Oliveira em Single Singers Bar. A inexperiência com a linguagem do cinema fica evidente em alguns momentos. Faz falta, por exemplo, legendas de identificação dos espetáculos. ServiçoAo Pé de Cecília Santa. Espaço Unibanco 1. Rua Augusta, 1.475, telefone 3288-6780. Hoje, às 21 h. Grátis

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