Gravadoras engavetaram projetos

Executivos da Universal e da EMI, que detêm grande acervo de bossa nova, dizem que a prioridade é para produtos vendáveis

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2008 | 00h00

Responsáveis por significativas expedições de relançamentos de catálogo, os pesquisadores Charles Gavin e Rodrigo Faour têm diversos projetos engavetados nas multinacionais, que este ano deram uma freada na exploração de acervo. Pelo menos Faour conseguiu, enfim, emplacar sua caixa de Ney Matogrosso, que sai ainda este mês, reunindo 17 CDs com títulos da primeira fase do cantor desde a estréia-solo, na Warner, até os discos que lançou pela Ariola e Sony e um de pérolas raras. Nos moldes que fez com a discografia de Maria Bethânia, é um projeto arrojado para o mercado atual, em que cautela é a palavra de ordem.Outro projeto dele, com 11 discos de Simone na EMI, ficou para o início de 2009. "Hoje está difícil fazer qualquer projeto nas gravadoras. Mesmo esses do Ney e da Simone foram cancelados várias vezes e voltaram", diz Faour. "As pessoas estão com medo, porque a gente está vendendo muito pouco disco."Gavin que diz que, por conta dos 50 anos de bossa nova, visitou todas as gravadoras que têm acervo de títulos do gênero, propondo projetos de relançamento de catálogo. Em vão. "Insisti, mandei e-mails, até um momento em que percebi que não ia acontecer, porque eles não estavam disponíveis nem com cabeça para esse tipo de coisa", conta. Segundo Alice Soares, supervisora do Departamento de Marketing Estratégico, da Universal, que trabalha com acervos e relançamentos, "a estrutura atual do marketing estratégico está muito ligada ao departamento comercial" da gravadora. "A tendência atual, por conta dessa crise toda do mercado fonográfico, que vem de antes, é de a gente ficar atrelado ao que é vendável, ao que tem retorno financeiro. A poesia do disco está cada vez mais esgotada, por assim dizer. A gente tem um catálogo maravilhoso para ser explorado, mas vamos fazer isso aos pouquinhos."Revendo estratégias, outras gravadoras, como a EMI, também só vêm fazendo o que é "economicamente viável". "Nos anos 90 houve uma exploração muito mais ativa do nosso catálogo, primeiro porque existia algo fundamental que é o consumidor. Havia viabilidade econômica para que isso acontecesse. Nos últimos dois ou três anos, nos concentramos mais nos títulos de maior rotação e nos lançamentos, porque se dedicar ao novo é a razão de ser, a matéria-prima do próprio negócio", diz Marcelo Castelo Branco, presidente da companhia no Brasil. Este ano, a EMI relançou 120 títulos de artistas como Paulinho da Viola, Clara Nunes e Adoniram Barbosa em formato digipack. Para 2009, está previsto o relançamento da discografia da Legião Urbana, de olho no público "de faixa etária mais elevada", que é o de maior participação no consumo do produto físico da música. A Universal vem com os clássicos álbuns de Tim Maia e Jorge Ben, que só saíram em CD na série Colecionador, em edições desleixadas, e a terceira caixa de Caetano Veloso. "Aqui no Brasil é uma burocracia enlouquecida para lançar qualquer coisa do passado. É um autorização autoral que fica pendente, é o fotógrafo que entrou com processo porque 15 anos atrás na hora que foi transformar de LP para CD a capa perdeu um pouco da qualidade, tem de tudo", diz Alice. A propósito, a EMI não conseguiu resolver o imbróglio com João Gilberto a tempo de relançar os três primeiros e fundamentais discos do cantor neste cinqüentenário da bossa nova.Dentro do possível, Universal e EMI estão disponibilizando parte do acervo na internet, mais do que conseguem lançar fisicamente. "Os blogs num primeiro momento suprem uma necessidade do consumidor, que também abre uma janela de oportunidade para nós, com relação à exploração digital de determinados títulos que não são disponibilizados no mundo físico", diz Castelo Branco. "Desde o princípio, uma das maiores áreas de oportunidade da internet era o que a gente chama de horizontalizar nosso catálogo, ou seja, disponibilizá-lo todo no mundo digital, o que é impossível no mundo físico, até por falta de espaço."A previsão é de que em breve todos os seus catálogos estejam digitalizados (a EMI até contratou um dos diretores do Google para isso), mas como ganhar dinheiro com a música virtual no futuro ainda é um mistério. "O que tem de ser repensado é simplesmente tudo. É um impasse mesmo", diz Alice. "O Brasil ainda consegue ganhar dinheiro com o CD físico, com o DVD, a gente conseguiu superar as vendas este ano."

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