Gravação inédita pode trazer voz de Frida Kahlo

Gravação inédita pode trazer voz de Frida Kahlo

Registro que se acredita ser da fala da artista foi divulgado pela Biblioteca Nacional do Som do México

Alex Marshall e Mark A. Walsh, The New York Times, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2019 | 18h54

Frida Kahlo é uma das artistas mais famosas do século 20. Seus quadros, em especial seus muitos autorretratos, são instantaneamente reconhecidos. Sua imagem está imortalizada em produtos tão variados quanto descansos de copo, cosméticos, camisetas, sacolas, tequila. Ela virou até boneca Barbie. 

Mas uma faceta de Frida foi por muito tempo inacessível: sua voz. Antes, descrições escritas eram a única pista de como a pintora falava. Gisèle Freund, fotógrafa francesa amiga de Frida, escreveu certa vez que ela tinha “uma voz melodiosa e cálida”.

Agora, uma gravação que se acredita ser da fala da artista foi divulgada pela Biblioteca Nacional do Som do México. Na gravação, uma mulher descreve o pintor Diego Rivera, marido de Frida: “Ele é um garotão, enorme, de rosto amigável e olhar triste”, diz a mulher.

“É alto, moreno, extremamente inteligente e tem grandes olhos que raramente ficam parados – parecem querer saltar das órbitas por causa das pálpebras inchadas e protuberantes como as de um sapo.” 

“Os olhos de Diego parecem feitos sob medida para um artista”, acrescenta a voz, “talhados para um pintor de espaços e multidões.”

A admiração por Rivera é clara na gravação, que supostamente seria de um texto de catálogo para exposição. O pintor também teria “um sorriso doce e irônico, lábios carnudos e mãos pequenas, maravilhosas”. A voz conclui falando dos “ombros estreitos, redondos, infantis” de Rivera, encimando “um corpo inusual de monstro inescrutável”. 

Segundo a Biblioteca Nacional do Som, a gravação veio de uma edição piloto de The Bachelor, um programa de rádio mexicano dos anos 1950 gravado para a Televisa Radio. Em 2007, milhares de gravações do arquivo da Televisa Radio foram doados à biblioteca para serem digitalizados e restaurados.

Acredita-se que a gravação seja de Frida em parte porque a voz é apresentada como a de “uma pintora que não está mais entre nós”. A Biblioteca Nacional do Som disse que seus pesquisadores calculam que a gravação foi feita em 1953 ou 1954, pouco antes de Frida morrer. O programa teria sido completado provavelmente em 1955, após a morte da pintora.

Alejandra Frausto, secretária da Cultura do México, disse numa entrevista coletiva que os pesquisadores continuarão trabalhando para tentar confirmar que a gravação é definitivamente de Frida.

Pável Granados, diretor da Biblioteca Nacional do Som, disse que os pesquisadores estão examinando cerca de 1.300 outros teipes do arquivo de The Bachelor em busca de mais gravações da artista.

Erika Servin, também artista mexicana e conferencista sobre fine art da Universidade Newcastle, da Inglaterra, disse que a gravação pode surpreender muita gente: “Há muito idealismo em torno de como ela era – quão forte – e acredito que muitos acham que tinha uma voz mais marcante, mais profunda”.

“Ela também fumava muito”, acrescentou Servin, sugerindo que a expectativa era de uma voz mais rouca. “Mas a voz é realmente doce, delicada e muito feminina.”

Servin assinalou: “Com suas roupas e sua imagem, ela era intensamente feminina; portanto a voz combina. Mas para se ter uma ideia mais clara da artista é fundamental visualizar o quadro completo: a bela e delicada Frida Kahlo tinha fortes opiniões políticas e sua arte era igualmente forte”. 

Waldemar Januszczak, crítico de arte britânico, disse que está entre os ficaram atônitos com a gravação: “Foi uma surpresa. Estava esperando algo sofrido, sombrio, temperamental. Em vez disso, ela parece alegre como uma escolar lendo um poema para a mãe. Onde está a suposta angústia?”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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