Grandes nomes e ótimas surpresas na mostra gaúcha

Começa muito bem a longa e diversa programação do Porto Alegre em Cena

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2009 | 00h00

O festival internacional de teatro da capital gaúcha tem sempre muitos espetáculos na programação. Nesta sua 16ª edição, que começou na terça e só termina no dia 25, são nada menos do que 58 montagens - 21 internacionais, 23 nacionais e 14 locais - com até três apresentações cada. Não raro esse evento, que tem como coordenador geral Luciano Alabarse, traz ao País grandes nomes da cena internacional como Peter Brook, Pina Bausch, Ariane Mnouchkine, o diretor lituano Nekrosius e a atriz Norma Aleandro.

Só este ano, finda a primeira semana de programação, o público do Porto Alegre em Cena já pôde acompanhar as atuações de Dominique Blanc e Patrice Chéreau, e espetáculos internacionais de reconhecida qualidade como Neva e Diciembre, do chileno Teatro en El Blanco. E Isabelle Huppert estará na mostra com Quartett, dirigida por Bob Wilson, depois de passar por São Paulo.

Grandes criações são importantes porque provocam reavaliação de parâmetros e aprimoram o olhar de artistas e público, mas não se apoia apenas no prestígio já conquistado a qualidade curatorial de Porto Alegre em Cena. Nesta edição, por exemplo, revelou-se ótima surpresa a extrema qualidade de interpretação dos uruguaios - Cesar Troncoso, Rogelio Gracia, Cecilia Sánchez e Leonor Svarcas - em Un Dios Salvaje, dirigidos por Mario Morgan.

Essa peça de Yasmina Reza (que coincidentemente foi feita na França por Isabelle Huppert) flagra o encontro de dois casais que discutem a agressão ocorrida entre seus filhos: um deles saiu com dois dentes quebrados. Tudo começa civilizadamente, mas o "verniz" logo se quebra. Impressiona a "medida" dos atores que chegam à agressão física, em interpretação crível, precisa, realista, sem gritaria ou chanchada. O público ri porque é patético, mas não há concessão ao humor. E, mérito do diretor, num apartamento de classe média, nenhum elemento é só decorativo. É teatro "comercial" - o termo usado aqui sem qualquer conotação pejorativa, no sentido daquela criação que busca o reconhecimento e não o estranhamento - do melhor nível.

Há ainda cinco peças nordestinas, todas prometendo escapar do regionalismo, sem negar raízes. Cumpriram essa expectativa as já conferidas Ato, do grupo Magiluth de Pernambuco, e A Mar Aberto, de Natal (RN), escrita e dirigida por Henrique Fontes. A primeira "cita" Beckett e faz boa síntese visual para retratar poder e opressão. A segunda é belo espetáculo que resultaria ainda melhor se os atores secassem um pouco o tom "lamentoso" na voz, incompatível com a poética rude dessa história de pescador.

A repórter viajou a convite da organização do festival

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