Grandes espetáculos e grandes diretores

Saiba o que mais está fazendo a cabeça do público do Porto Alegre Em Cena

Beth Néspoli, PORTO ALEGRE, O Estadao de S.Paulo

17 de setembro de 2008 | 00h00

São 23 horas de segunda-feira. Ruídos e luzes tomam a Usina do Gasômetro, o enorme centro cultural localizado às margens do Guaíba. Ali, a organização do Porto Alegre em Cena, o festival internacional de artes cênicas da capital gaúcha, cuja 15ª edição começou no dia 2 de setembro, recriou a singular arquitetura do Teatro Oficina. Ali, o diretor José Celso Martinez Correa e os atores do grupo Uzyna Uzona, que chegaram à cidade algumas horas antes, se preparam para começar um ensaio de Os Bandidos, de Schiller, que faz sua pré-estréia hoje à noite no festival. A estréia será em São Paulo, no dia 26."Lá estávamos ensaiando todos os dias até às cinco da manhã", diz Zé Celso, enquanto observa as projeções no telão de 8,5 metros de largura por 5 de altura, onde se vê uma imagem que une o símbolo do Oficina, a bigorna, com o SS, marca do grupo empresarial Silvio Santos, seu vizinho em São Paulo. "Eles também fazem 50 anos", diz Zé Celso. Os Bandidos celebra o jubileu do Oficina.O ensaio vai varar a madrugada gelada de Porto Alegre. Zé Celso prefere que a reportagem não acompanhe, porque será direcionado para testar técnica e adaptação ao espaço, que reproduz o Oficina de forma menos espremida. As arquibancadas têm inclinação mais suave, o público fica mais próximo; a pista alargada desemboca num palco, ao contrário do original, onde é bloqueada pela parede de tijolos que separa o Oficina do vizinho Silvio Santos.Em Porto Alegre, essa parede foi ?derrubada? e a pista se alargou, mas termina, propositalmente, em outro "beco sem saída", o tradicional palco italiano. "Ali fica o filho Franz, que na minha adaptação é Cosme, e a família Dom", diz Zé Celso (leia ao lado sobre a peça original). "O filho Karl é Damião." Na encenação, o embate entre os irmãos será ponto de partida para muitas outras oposições, até estéticas: apolínea no palco, dionisíaca na pista. Numa peça em que dois irmãos entram em disputa, não faltarão, claro, referências à luta de quase 30 anos entre Zé Celso e o grupo Silvio Santos por causa da ocupação do entorno do teatro. Porém, tudo com a vibração característica das criações do Uzyna Uzona. "Minha adaptação é toda em versos", diz Zé Celso. O espetáculo começa às 20 horas e promete durar cinco horas. Mas com esse grupo, aberto à relação viva com o espectador, à interação e ao improviso, nunca se sabe.Os gaúchos já haviam esgotado os ingressos de um outro espetáculo de quatro horas, uma encenação de Fausto, que veio da Lituânia. Privilegiados, podem acompanhar peças de dois dos maiores representantes da literatura alemã, Goethe e Schiller, em versões de dois diretores que merecem a definição romântica de gênios: Zé Celso e o lituano Eimuntas Nekrosius, a mesmo que dirigira uma estupenda montagem de Otelo, vista no festival do ano passado. E esta 15ª edição ainda traz O Grande Inquisidor, de Dostoievski, solo dirigido por Peter Brook numa brilhante atuação do inglês Bruce Myers. O público das três apresentações previstas de Fausto teve de concentrar-se em uma só, num espaço maior, por conta da retenção do cenário em Buenos Aires. Mas a mudança, aparentemente, em nada prejudicou o espetáculo, mais uma vez mobilizador. Imagens fortes - desde a cenografia que remete a vulcões comprimidos à cena em que feiticeiros são cães roendo um osso gigante - não visam o efeito, mas a tensão dramática. O encenador, menos interessado nos episódios da trama, concentrou o foco na sua essência: a angústia do homem que quanto mais expande o conhecimento, menos sabe sobre o sentido da existência; quanto mais supera limites, mais consciência tem deles. Dois gestos simples, ao serem descontextualizados, ganham expressão forte e viram síntese poética: o de apontar - com segurança, porém em muitas direções ao mesmo tempo - e o de caminhar às cegas, tateando, braços estendidos, a última imagem do ambicioso e arrogante Fausto.Impossível não notar a semelhança temática entre Fausto e O Grande Inquisidor, uma "argumentação" sobre a liberdade do homem retirada de um trecho de Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski. Mas, neste caso, conta menos a mão do diretor, de pouca interferência. O que seduz o espectador é a forma como o ator domina a retórica do texto, compreende profundamente o que diz, e o compartilha com emoção e técnica em admirável equilíbrio.

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