McCormick Gallery
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Grande nome do expressionismo abstrato, Mary Abbott morre aos 98

Pintora frequentava os mesmos círculos de artistas como Jackson Pollock e Willem de Kooning, mas foi menos reconhecida que seus colegas homens

Neil Genzlinger, The New York Times

02 de outubro de 2019 | 16h41

Mary Abbott, que estava no coração do movimento do expressionismo abstrato em Nova York nas décadas de 1940 e 1950 mas, como outras pintoras do gênero, recebeu muito menos reconhecimento que seus colegas homens, morreu no dia 23 de agosto em Southampton, Nova York, nos Estados Unidos. Ela tinha 98 anos.

Thomas McCormick, da galeria McCormick em Chicago, que representava a artista, anunciou o falecimento.

Abbott assinava trabalhos vigorosos e coloridos, frequentemente inspirados pela natureza ou pela música, e frequentava os mesmos círculos de artistas como Jackson Pollock, Willem de Kooning e outros artistas que redefiniram a pintura nos anos após a Segunda Guerra Mundial. De Kooning, em particular, por 17 anos seu senior, se tornou um amigo, amante e protetor, inclusive de outros artistas homens.

“Eu não gostava muito de Pollock”, Abbott relatou em uma entrevista para a biografia de Kooning: An American Master, de Mark Stevens e Annalyn Swan, publicada em 2004. “Quando ele estava sóbrio, ele não falava, e quando ele estava bêbado, Bill tinha que tirá-lo de cima de mim”. 

Essa vívida descrição transmite o que as mulheres que tentavam fazer seus nomes por elas mesmas naquele mundo enfrentavam. 

“Mary Abbott foi uma das primeiras participantes do desenvolvimento do expressionismo abstrato”, disse Gwen Chanzit, curador da mostra Women of Abstract Expressionism, de 2016, do Denver Art Museum. A mostra incluía trabalhos de Abbott, “mas como outras mulheres pintoras, ela foi em maioria deixada de fora dos registros históricos desse movimento dominado por homens. Só agora as mulheres do expressionismo abstrato começam a ser reconhecidas por suas contribuições”. 

Ao contrário de algumas de suas contemporâneas — entre elas, Lee Krasner (1908-84), esposa de Pollock, e Jay DeFeo (1929-89) —, Abbott viveu para ver o ressurgimento do interesse no trabalho de expressionistas abstratas.  

“Ver este e outros trabalhos preliminares da senhora Abbott juntos é uma ameaça”, escreveu para o The New York Times o crítico Benjamin Genocchio sobre uma mostra em 2018, na galeria Spanierman, em East Hampton, Nova York, que incluía diversas pinturas da artista, “porque a maioria veio de coleções privadas e raramente foram exibidas em público. Poucos dos trabalhos de Abbott estão em exibição permanente em museus na área de Nova York. É uma vergonha, porque ela é um dos últimos grandes pintores do expressionismo abstrato de sua geração”. 

Mary Lee Abbott nasceu no dia 27 de julho de 1921, em Nova York, e em suas duas primeiras décadas pareceu inclinada a uma vida completamente diferente da que levou. Seu pai, Henry, era um capitão da marinha americana  e detentor de uma Cruz da Marinha, e sua mãe, Elizabeth, uma poeta e colunista sindicalizada, era membro de uma família proeminente. Mary Abbott saiu pela primeira vez no The Times e outros jornais da época não como artista, mas debutante, com suas atividades de alta-sociedade documentadas em detalhe. 

“Debutantes dessa temporada, lideradas pela senhorita Mary Lee Abbott, neta do senhor William Morton Grinnell, estavam entre os grupos que ensaiaram esta manhã no Conscience Point para o concurso do tricentenário de Southampton, Founded for Freedom”, relatou o The Times no dia 9 de agosto de 1940, “que acontecerá nas próximas quarta e quinta-feiras no North Sea, com vista para o espaço em que desembarcaram os primeiros fundadores da comunidade”.

À época, no entanto, Abbott já havia começado a ter aulas no Art Students League, em Manhattan. Após uma breve incursão pelo mundo da modelagem — ela apareceu na Vogue, Harper’s Bazaar e outras revistas —, Abbott se mudou em 1946 para um flat sem aquecimento perto do Washington Square Park, e se atirou à vida de artista.

De Kooning, de acordo com o livro An American Master, costumava levar querosene para garantir que Abbott teria aquecimento. Eles se envolveram romanticamente por alguns anos.

“Não havia jantares”, disse Abbott, segundo o livro. “Não havia dinheiro suficiente para isso. Depois nós fomos ao Cedar Bar”. A taverna era um lugar famoso por reunir artistas avant-garde e escritores. Pollock, Franz Kline, Robert Motherwell e outros conhecidos pintores do expressionismo abstrato se encontravam ali.

Abbott era, à época, separada de Lewis Teague, um artista com quem ela se casou em 1943 e, em 1949, ela foi para as Ilhas Virgens para pedir o divórcio. Lá, conheceu Tom Clyde, um investidor aposentado, e eles se casaram no ano seguinte. Eles tinham uma residência em Long Island, mas, por conta dos problemas que ele tinha nas costas, eles passavam os invernos no Haiti e em Santa Cruz, e as pinturas de Abbott começaram a ser influenciadas pelas pessoas e paisagens que ela encontrava nesses lugares. Depois, quando ela mais uma vez se estabeleceu em Southampton, seu jardim inspirou seu trabalho. 

“Mitologia e religião eram critérios, mas a natureza foi o interesse de longa vida de Abbott”, Chanzit disse por e-mail. “A liberdade do seu pincel foi particularmente inspirada por lugares e variações de cores e luzes no mundo natural. Suas pinturas nunca eram registros de lugares específicos, mas suas respostas pessoais a eles.”

Ela e Clyde se divorciaram em 1966, e ela passou a década de 1970 dando aulas na Universidade de Minnesota. Depois ela retornou à Costa Leste, por alguns anos dividindo seu tempo entre um loft em Manhattan e uma pequena casa em Southampton. Há uma década, ela finalmente abriu mão do loft. 

Abbott deixa uma meia-irmã, Elizabeth Abbott. Em 2017, a galeria online IdeelArt escreveu sobre Mary, questionando porque ela não era tão conhecida. 

“Como é possível uma artista cujo trabalho é considerado um profundo impacto em um dos mais importantes movimentos da arte no último século ser também, de alguma forma, desconhecida pelo público contemporâneo?”, o texto indaga. “Com base em entrevistas que Abbott deu, coisas como ter suas realizações elogiadas, obter crédito por sua influência e ser reconhecida por suas contribuições para a história da arte eram de pouca importância para ela. Ainda ativa em seu estúdio, em seus mais de 90 anos, Abbott parece satisfeita em focar no que ela acredita ser mais importante: fazer arte; e deixar que irrelevâncias como a reputação lidem consigo mesmas”. 

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