''Grande livro dque fala todas as línguas''

Como é que vou me esquecer daquele livro encapado em pano azul, que um dia meu pai trouxe para casa? Monteiro Lobato vendia livros pelo interior de São Paulo. Como minha família era de Araraquara, um dia o próprio Lobato ofereceu a meu pai aquele volume de Os Sertões. Foi um encantamento. Abri o livro, A Terra, O Homem, A Luta, daí disse, bom, já li este livro! Luta daqui, luta dali, vieram aqueles anos duros, o livro foi se tornando presente, e muito mais a partir dos ataques do CCC à peça Roda-Viva. A gente precisava se defender, então começamos a estudar A Luta. Naquele momento Mao Tsé-tung já tinha encomendado a tradução de Os Sertões para o chinês. Sabiam disso? Tanto que quando o Geraldo de Mello Mourão foi à China, perguntaram para ele como era aquele ''poema ilimitado brasileiro'', repetindo a ideia de poema ilimitado que se aplica a Hamlet, de Shakespeare.Quem se aproxima da obra se enfeitiça. Inclusive Euclides escreve enfeitiçado por Conselheiro. E ''aquilo'' batia forte nele quando via a terra. Não era deserto, mas não era zona fértil. Era lugar onde não se podia viver, mas se podia viver, porque de repente brotava uma primavera. Era uma natureza maravilhosa, e terrível. Tudo tão contraditório, como a condição humana. Euclides foi gostando dessa possibilidade de resistência. Oswald de Andrade disse que, no portal da literatura brasileira, de um lado está Euclides da e, de outro, Machado de Assis. Euclides anunciou o povo brasileiro, Machado o lado crítico do povo brasileiro. Quando Machado soube que os conselheiristas tinham tomado Canudos, escreveu um texto pirado, chamado Tudo Pirata, se voltou para a aventura, reagiu ao estabelecido. Tudo Pirata é uma questão de ordem maravilhosa. Para entender o livro você precisa ver o mapa, ler o dicionário, fazer glossário, tem que ir à luta. Por exemplo, depois que os sertanejos passaram a trabalhar conosco no teatro, sertanejos nordestinos vivendo em São Paulo, aprendemos a não entregar nossas terras ao Grupo Silvio Santos. Começamos a trabalhar Os Sertões com eles, houve um despertar de coisas, uma enorme vontade de estudo. Porque este livro fala todas as línguas, é escrito por muita gente, não foi só o Euclides. E sobretudo evoca uma paixão. Na peça, vivemos Canudos como o lugar onde Conselheiro nasce. O lugar onde Antônio Vicente Mendes Maciel passa a ser Antônio Conselheiro. Maciel foi apaixonado por uma mulher, que o traía com outros homens. E no Nordeste, a lei era: ''Mata!''; mas ele não matava. Só trocava de cidade. E ela traía novamente. E ele mudava de cidade. Até que um dia ela o abandonou. Ele largou tudo e se desconstruiu. Morre o homem de gravatinha. Como aconteceu com Buda!O texto em que Euclides apresenta Antônio Conselheiro é belíssimo. Tem loucura, tem beleza. A metáfora mais forte do livro é a rocha viva. O cientista tentava dizer que havia uma identidade brasileira, do índio, do negro e do branco, e queria que essa ideia tivesse lastro. Mas ela é viva, e se é viva, voa, se transforma. Tanto é mutante que aconteceu uma coisa muito doida: os próprios soldados que voltaram para o Rio, sem receber o soldo da guerra, foram morar no morro. Fizeram uma cidade igual a Canudos e criaram o arquétipo da favela brasileira. É um tremendo livro não lido. Universal, igual à Bíblia, livro de um positivista que vai para Canudos para massacrar, mas diante da terra, do homem e da luta, ele pira. Passa tão mal que precisa ir embora. Porque viu degolas, torturas. Os fardados ordenavam: ''Viva a República! Se você disser isso, a gente vai te matar com bala. Se não disser, a gente vai te matar com faca.'' Morrer pela faca era o inferno. Mas eles preferiam sacrificar a vida eterna a dizer aquilo. Que coisa fajuta, era um regime oligárquico dentro de um regime republicano. Uma vez na Grécia li em voz alta A Terra e vi que aquilo era um cântico. Voltei com a obsessão de encenar essa parte do livro. O público não entendeu. Depois queríamos montar A Luta, mas o teatro estava em reforma. Em setembro de 2002, ano do centenário de Os Sertões, decidimos encenar A Terra, sem ter um tostão, sem ter nada. E daí foi acontecendo: de repente, estávamos com um espetáculo de cem pessoas, entre atores, músicos e técnicos. É isso, o livro tem uma fertilidade extraordinária, que nos levou a uma epopeia: 27 horas de teatro! Ter vivido Antônio Conselheiro me ensinou muito. Criamos no Oficina uma organização igual a Canudos.Sou pajé, não sou juiz, não sou diretor. Sou conselheiro. Quer ouvir? Então, ouve. Não quer ouvir? Não ouve. Aprendemos isso também com Os Sertões. Aprendemos a eliminar o assistente, o coadjuvante... Euclides fala de um lado obscuro que o projeta na história. Mas é exatamente a luminosidade desse lado obscuro que os positivistas de hoje ainda não conseguem entender. Hoje penso que tivemos a sorte de interpretar Os Sertões a partir de tudo o que veio depois. Porque Euclides antecipa Gilberto Freyre, Oswald Andrade, Glauber Rocha, e faz uma obra que transcende o nacionalismo. Transcende o próprio Brasil. O positivismo trouxe uma coisa bonita para a nossa bandeira, que foi o lema ''amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim''. Sumiram com o amor, agora reduzido a mera categoria afetiva. E impuseram a ordem e o progresso para o povão. Os Sertões nos motiva a superar essas categorias.Perguntas e respostasQual é a influência de Euclides na obra de autores consagrados, como Graciliano Ramos? José Leonardo do Nascimento: Como já disse antes, a ideia de ''sertão'' não embute uma ideologia, tanto que o termo já havia sido utilizado até por Pero Vaz de Caminha, na fase do Descobrimento. Mas todos os que escreveram sobre o sertão no século 20 devem, de fato, pagar seu tribuno a Euclides. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, temos o personagem de Fabiano, um sertanejo que não é um forte, mas briga como pode contra a seca. Em São Bernardo, do mesmo autor, romance que não se passa no sertão, encontramos a figura do comerciante que enriquece de forma primitiva. Em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Riobaldo diz coisas que Euclides certamente assinaria embaixo. E por que as metáforas euclidianas se prestaram a transposições? Por que tinham, por trás de si mesmas, uma concepção de filosofia, de história, uma visão ciência e arte.Se é possível buscar pistas interpretativas de Os Sertões nos estudos de hagiografia, então caberia uma provocação: que espécie de santo seria Euclides? Leopoldo Bernucci: Eu temia que esta pergunta aparecesse (risos). Euclides não era santo, portanto, não vamos colocá-lo em altares, pois não seria o lugar apropriado para ele. Era um homem que vivia aos dramas do seu tempo, mas com um senso de missão forte. Coelho Neto fazia brincadeiras sobre Euclides num círculo mais íntimo de amigos, dizendo que ele era um homem muito sério, compenetrado demais, portanto, próximo dos santos.Então, o que o aproxima da santidade seria o sentido missionário que colocava nos seus empreendimentos, vivendo o drama dos homens.Como lidou com a morte de Euclides na montagem do Oficina? José Celso Martinez Corrêa: Ainda não estamos perto daquilo que Rimbaud falou: ''Eu é o outro.'' Tínhamos, ali no teatro, a figura de Euclides da Cunha. Tínhamos a pessoa dele, humana, como todos nós, mas imersa num regime patriarcal cujas regras absurdas são capazes de levar o indivíduo à morte. Imagine só, ser capturado por essa besteira chamada honradez? E foi o que aconteceu. Talvez Euclides tenha cometido um suicídio, inclusive porque já foi ao encontro do rival anunciando: ''Vim aqui para morrer ou para matar.'' Imagine... Ele estava tomado pelo ''oposto do outro'', ou seja, o oposto daquele que durante um tempo aceitou ser corno, admitindo que esse fato fizesse parte da vida. Até fugiu dos instintos mais violentos, indo parar justamente numa guerra cheia de sangue, que tremenda ironia do destino. Esse é o paradoxo trágico das duas figuras em Euclides. São completamente diferentes, mas completamente coladas. Espelho um do outro. No espetáculo faço os dois se encontrarem e contracenarem vestidos da mesma maneira.

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