Gramado vê o Tarantino da Colômbia

Filme de Carlos Moreno também pode ser comparado ao nosso Tropa de Elite

Luiz Carlos Merten, GRAMADO, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2008 | 00h00

Na quarta noite, o 36° Festival de Cinema de Gramado despertou como de um pesadelo com o filme colombiano Perro Contra Perro, de Carlos Moreno. Num certo sentido, é o Tropa de Elite do cinema da Colômbia, não porque trate do universo da política, em oposição ao do crime, mas porque Perro Contra Perro é o filme mais pirateado da história do cinema do país andino. Cerca de 1,2 milhão de cópias piratas foram vendidas em Bogotá, Cali, Cartagena e muitas delas ganharam o exterior e a equipe recebeu fotos de ambulantes vendendo o DVD pirata do filme em Nova York, Miami e Barcelona.A associação mais fácil de fazer, sobre o cinema de Carlos Moreno, é com Quentin Tarantino ou, vá lá que seja, Cidade de Deus. O cão contra cão do título refere-se a criminosos que se defrontam como animais raivosos, quando um deles rouba dinheiro de um chefão e o outro, por haver matado um capanga do sujeito, é submetido à ?brujeria?. Essa introdução do sobrenatural faz toda a diferença em Perro Contra Perro e introduz um elemento de novidade à violência de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, de alguma forma reproduzida pelo italiano Matteo Garrone, em seu filme sobre a Camorra, a Máfia napolitana - Gomorra. Um pouco pelos cães do título - e pelos outros que disputam avidamente restos -, mas também pela própria natureza dos personagens, é possível dizer que o filme de Moreno se constrói à sombra de Reservoir Dogs, o primeiro Tarantino, que se chamou Cães de Aluguel no Brasil. A curiosidade foi que, na ausência do diretor, seu roteirista - Alonso Torres - esclareceu que Moreno não gosta nem um pouco do autor de Pulp Fiction (Tempo de Violência). A Tarantino, ele prefere autores de Nova York, como Jim Jarmusch e Abel Ferrara, com quem seu universo violento tem mais a ver.Na seqüência da apresentação de Perro Contra Perro, o público, ainda atordoado, viu Júlio Bressane subir ao palco do Palácio dos Festivais para receber o troféu Eduardo Abelim, que leva o nome do pioneiro do cinema gaúcho e que é entregue a um grande nome da realização, no País. Um prêmio de honra ao mérito para quem se destaca atrás das câmeras, diferentemente do Oscarito, atribuído este ano a Walmor Chagas, para quem se destaca em frente a elas. À tarde, Bressane havia dado uma entrevista à imprensa. Absolutamente sedutor - você pode até discutir os filmes dele, mas não o fato de que Bressane possui, como poucos, o segredo de uma boa prosa -, ele desfez equívocos sobre sua vinculação ao cinema marginal (?uma simplificação midiática?) e o gosto por produções de baixo orçamento ou filmes herméticos, para poucos.Bressane esclareceu que nunca teve orçamentos menores e, quanto ao público, nunca teve grandes verbas para lançamentos, ficando segregado a um circuito reduzido. O problema, como ele explica, não é fazer cinema para pouca ou muita gente. O problema é puxar o espectador para baixo, para a mediocridade - em nome da facilidade de comunicação -, quando até Hollywood, nos anos dourados, forçava o espectador a olhar para cima.No palco do Palácio dos Festivais, Bressane foi duro, ou simplesmente honesto, relatando as coisas como foram. Disse que Gramado, o festival, foi sempre azedo e antipático com ele e seu cinema, e que as preferências da gestão anterior de curadoria haviam levado o evento à cova. Gramado morreu. Para ressuscitá-lo, uma nova curadoria - de José Carlos Avellar e Sérgio Sanz - havia sido proposta, foi essa que se lembrou dele e era emocionado que ele recebia o troféu Eduardo Abelim. Para um diretor com fama de autor de filmes-cabeça, foi no mínimo divertido ver Bressane, na tela, no especial realizado pelo Canal Brasil, dizer que existem coisas que põe nos filmes só porque são bonitas, sem a preocupação da ditadura do que elas querem dizer. Bressane reclamou das ditaduras sobre o cinema brasileiro aqui em Gramado.A noite prosseguiu com outro filme - o quarto - da mostra competitiva brasileira, o documentário Pachamama, de Eryk Rocha. Ele já ultrapassou o estágio de filho de Glauber. Eryk possui identidade própria. No filme, ele próprio sai do Rio, numa van - único cineasta num grupo de historiadores e analistas políticos - e atravessa boa parte do País para chegar à América Latina andina (Peru e Bolívia) para descobriu um pouco desse continente que seu pai definia como ?em transe?. O próprio Eryk define Pachamama - o título vem do nome da deusa da fertilidade e da terra nas culturas arcaicas dos Andes - como um filme de viagem e descoberta. Não havia roteiro de filmagem, apenas um roteiro de viagem. Ele foi descobrindo a paisagem e, com ela, a imagem, suas camadas e texturas. Quando a van deixa o Rio, o governador Sérgio Cabral está anunciando sua política de confronto com o crime. Um pouco o caminho que Eryk percorre é a estrada que une o Atlântico ao Pacífico (e que virou uma das rotas do narcotráfico). A viagem para a Bolívia e o Peru é rumo a comunidades indígenas que estão propondo novas formas de mobilização, organização e revolução, distantes da esquerda tradicional. O fenômeno Evo Morales vem à tona não de forma personalista, mas como o presidente indígena da Bolívia. Aonde isso vai levar, Eryk ainda não sabe, mas vale acompanhar sua viagem, uma das mais criativas e intrigantes aqui em Gramado.

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