Gramado na sua primeira polêmica

Corumbiara divide a crítica em noite de homenagem ao cineasta Walter Lima Jr.

Luiz Carlos Merten, GRAMADO, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2009 | 00h00

Foram programas tão distintos que o espectador até poderia pensar que o duplo formado pelos dois filmes da noite de quarta, no Festival de Gramado, eram o resultado de uma seleção esquizofrênica. O primeiro foi o longa colombiano Nochebuena, de Maria Camila Loboguerrero, uma espécie de Feliz Natal da Colômbia, mostrando a implosão de uma família aristocrática (e decadente) em plena ceia natalina. Loboguerrero fez algo como um "parente é serpente" histérico. Dá para rir (um pouco), mas o espectador termina engasgado no próprio riso e o crítico não se satisfaz com o resultado. Seguiu-se um intervalo e logo Walter Lima Jr. subiu ao palco para receber o troféu Eduardo Abelin, por sua contribuição ao cinema brasileiro. Na noite anterior, ao receber o troféu Oscarito, o ator e diretor Reginaldo Faria usara o palco do Palácio dos Festivais para um protesto contra o dirigismo cultural que rege a distribuição de patrocínio no País (e que o impede, malgrado seu currículo, de obter verbas para o novo filme que pretende realizar). Lima Jr. foi breve e colocou o foco na sua ligação com o diretor que dá nome ao troféu que recebeu.Garoto, em Niterói, ele viu suas primeiras sessões no cinema itinerante que o próprio Abelin levara ao Estado do Rio. Mais tarde, escreveu para Lauro Escorel o roteiro de Sonho Sem Fim, que tratava justamente da luta de Abelin para fazer cinema no interior do Rio Grande, quando a nova mídia ainda engatinhava (no Brasil e no mundo). O troféu marca agora seu terceiro encontro - ou ?esbarrão?, como disse - com o pioneiro ilustre. A homenagem a Walter Lima Jr. ficou singela, pela própria personalidade do homenageado. E estourou a bomba do 37º Festival de Gramado. O quarto longa concorrente brasileiro foi o documentário Corumbiara, de Vincent Carelli. Tirando o fato de o filme já ter sido exibido - e premiado - em outros festivais, até do País, Corumbiara é forte, fortíssimo, mas não foi uma unanimidade. Alguns críticos contestavam sua seleção, convencidos de que ele estaria mais bem integrado num festival de cinema etnográfico.Não é verdade, mas seria uma discussão interessante de levar com o diretor. Infelizmente, Carelli, que apresentou seu filme no Palácio dos Festivais, viajou ontem de manhã cedo e não participou do debate. Em seu lugar, estava na mesa somente o indigenista Marcelo Santos, seu parceiro na empreitada, mas habilitado a discutir as questões políticas - e até práticas - do filme, não sua estética. Santos foi honesto. Disse que não acompanhou a montagem e, inclusive, teve momentos de divergência com Carelli. Para explicar isso, é preciso contextualizar as circunstâncias em que o filme foi feito.Corumbiara documenta um massacre de índios ocorrido em Rondônia, nos anos 80. A velha história já parcialmente narrada em Mataram Irmã Dorothy. Índios foram mortos por fazendeiros que avançam sobre suas terras como parte de um projeto de desmatamento da grande floresta. Na concepção original de Marcelo Santos, funcionário da Funai, Corumbiara seria feito para reunir as evidências, até as provas, necessárias para reabrir o caso na Justiça, levando os responsáveis aos tribunais. Para isso, Carelli e ele partiram em busca dos últimos sobreviventes da chacina. Eles localizam esses índios que falam uma língua desconhecida. Dois repórteres do Estado acompanhavam a dupla quando fez o primeiro contato. São imagens lindas de uma jornada rumo ao desconhecido. As provas buscadas não foram reunidas. Carelli reorientou o projeto para um documentário na primeira pessoa.Seu filme é mais do que simplesmente cinema etnográfico - é cinema. A parte em que ele busca reunir provas tem um lado de thriller, pode ser até uma investigação de gênero. A aproximação dos índios vira uma perturbadora discussão sobre as ferramentas da linguagem, mas o mais denso e apaixonante de Corumbiara é a soma de todos esses elementos. Por meio do filme complexo que fez, Carelli dá seu testemunho sobre a importância do cinema como resgate histórico. As provas não foram reunidas, os responsáveis não estão indo a julgamento, mas a história está resgatada e seus personagens salvaguardados. Os índios, o diretor, a imagem, a palavra. Cabe tudo em Corumbiara. O caminho do Kikito, até agora, passa por aqui e pela Canção de Baal. O repórter viajou a convite da organização do festival

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.