Gramado: as primeiras emoções

Mostra começa com política de Alea, tributo a Dira e ''gauchês'' de Sérgio Silva

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

11 de agosto de 2009 | 00h00

Soma de três raças que ajudaram a construir a identidade brasileira - índia, negra e portuguesa -, Dira Paes foi a grande homenageada da primeira noite do 37° Festival de Gramado, no domingo à noite. Ela estava resplandecente, toda de negro, ao subir ao palco do Palácio dos Festivais. Dira lembrou que, em 1992, quando pisou pela primeira vez no evento da serra gaúcha, o cinema brasileiro não existia, atravessava um dos piores momentos de sua história. Veio crescendo com o tempo. 2 Filhos de Francisco, no qual ela faz a mãe de Zezé di Camargo e Luciano, foi um apogeu, o reencontro com o público. Como era Dia dos Pais, Dirá construiu uma metáfora emotiva - o cinema brasileiro, de certa forma, foi um pai para ela. Ela chorou, o público aplaudiu.Dira é a grande estrela bugra do cinema brasileiro, sentenciou Matheus Nachtergaele em seu depoimento no documentário com que o Canal Brasil retratou a homenageada. Foi uma bela homenagem, a primeira de uma série que o festival vai fazer. De certa maneira, elas vão restituir ao tapete vermelho de Gramado o glamour que a seleção talvez não favoreça. Dois ou três são, inclusive, obras miúras, de um experimentalismo que não atrai a imprensa das celebridades (e ela, tradicionalmente, era a favorecida neste festival). E começou a programação do 37° festival. O primeiro longa - latino - passou fora de concurso. Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutierrez Alea, foi exibido para comemorar os 50 anos do Icaic, Instituto Cubano e Arte e Indústria Cinematográfica. Pablo Pacheco López, vice-presidente de patrimônio, justamente do Icaic, veio ao Brasil para fazer a apresentação.Memórias retrata o mal-estar de um intelectual cubano, um aspirante a escritor, que permanece em Cuba, após a revolução, embora não se identifique com ela. É muito bom, mas talvez tenha havido certo exagero na pesquisa, feita pela internet, com 500 personalidades de todo o mundo, para cravar os 100 melhores filmes do cinema ibero-americano. Memórias chegou em primeiro, seguido por O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro, em segundo, e Los Olvidados, de Luis Buñuel, em terceiro. Ficção com elementos documentários e uma profunda, além de bem assimilada, influência do neorrealismo, Memórias do Subdesenvolvimento colocou o 37° Festival de Gramado sob o signo da mais exigente estética política. Revisto hoje, o filme antecipa uma tendência que seria marcante na carreira do diretor Alea, chamado Titón. Revolucionário desde a primeira hora, ele não fazia obras oficiais, aquilo que se chama de cinema ?chapa branca?. Questionava a nova organização social, o próprio povo no poder e isso dá uma permanência muito grande ao seu cinema.O primeiro longa brasileiro da competição foi o gaúcho Quase Um Tango, de Sérgio Silva, diretor de Anahy de las Misiones e Noite de São João. Quase Um Tango foi feito em película, mas, por problemas de finalização, teve de ser exibido no suporte digital. A fotografia em cores ficou muito lavada nas cenas diurnas, uma noturna num cabaré de estrada virou um borrão, o som estava muito alto e os protagonistas cariocas - Marcos Palmeira e Viviane Pasmanter, principalmente ela, em uma ou duas das quatro personagens que cria - falam um gauchês caricato. Tudo isso poderia ter feito de Quase Um Tango um desastre, mas o filme resiste e, se resiste, é porque é bom.Sérgio Silva fez um filme para debater, como disse, a simplicidade das coisas da vida. O personagem de Palmeira chama-se Batavo, uma referência do diretor a Bata, herói do episódio Mal di Luna de Kaos, dos irmãos Taviani. Batavo é um matuto do interior. Casa-se com uma mulher que o abandona. Ele vai para a cidade grande, enfrenta todo tipo de dificuldade para se ajustar, mas arranja outra mulher, a vida continua, segue seu curso. Batavo, no começo do filme, adora sentar-se no alpendre da casa para olhar o pôr do sol. A primeira mulher, a que o abandona, não aguenta ver sempre o que para ela é a mesma coisa. Ela parte e inicia uma trajetória decadente. Termina vendendo rosas no semáforo, que é onde Batavo a reencontra. Ele, pelo contrário, vê cada dia uma coisa diferente na mesmice do pôr do sol.É um filme sobre a vida que construímos para nós, sobre o significado da existência. Neste sentido, há algo de filosófico na simplicidade das coisas de Quase Um Tango. Mesmo tropeçando, às vezes, no sotaque - como quando fala com o cavalo -, Marcos Palmeira é ótimo, Viviane Pasmanter é bonita - e boa, principalmente na última personagem, a segunda mulher -, mas a grande atriz gaúcha Araci Esteves a todos engole. Araci faz a dona da pensão em que Batavo vai morar, quando chega à cidade. É durona, mas tem um coração de ouro. É uma mãe para os seus rapazes. O festival começou bem, mas frio, chuva e o medo da gripe suína - referida apenas como ?porco? - meio que afugentaram o público no primeiro dia. A meteorologia prevê sol somente a partir de hoje. A expectativa é de que, com o sol, volte a massa para a frente do palácio. O repórter viajou a convite da organização do festival

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