''Gosto mais de bruxa que de fada''

Tatiana Belinky, que faz hoje 90 anos e ganha festa e livros relançados em breve, faz balanço de sua arte voltada para crianças

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

18 Março 2009 | 00h00

Se existem no mundo duas coisas para as quais Tatiana Belinky torce o nariz são fadas de mundos encantados e moral de histórias. O motivo do primeiro caso é simples: que graça pode ter uma figura que é tão boazinha, o tempo todo? "Eu sempre quis ser uma bruxa, bem bonita, porque ela tem poder, humor e exerce o senso crítico." Dentro dessa categoria, a personagem que mais admira - e que "até hoje é tudo o que ainda tento ser" - é Emília. "Na minha opinião, ela é o maior personagem feminino da literatura brasileira, com perdão a Capitu, é claro", e gargalha. "Emília disse a Monteiro Lobato: Eu sou a independência ou a morte." Em relação à redução de todo um enredo a uma frase de efeito, cuja pretensão é provocar a reflexão, Tatiana é taxativa e exemplifica com outra contestação da boneca de pano dada por Tia Nastácia para Narizinho. "Certa vez, dona Benta contou uma história que a moral era ?fazer o bem sem olhar a quem?, e Emília discordou: ?Para os maus, pau!?. Assim como ela, eu sempre adorei ouvir fábulas, mas nunca gostei de quem quisesse me explicar o que eu tinha que entender. Eu sempre respeitei demais as crianças para impor conclusões que não fossem as delas." A perfeita compreensão de uma das maiores escritoras de literatura infantil do País talvez resida no fato de ela se sentir tão menina quanto estas que hoje leem ou, por enquanto, apenas ouvem com atenção as suas histórias e com elas brincam, dão risadas, se emocionam e, principalmente, contestam. Uma menina nascida em São Petersburgo, na Rússia, no dia 18 de março de 1919, que chegou ao Brasil aos dez anos com sua família e já falava russo, alemão e letão, língua materna de seus pais. Deu tempo de fazer as contas? Ela garante que os 90 anos que comemora hoje, em uma festa organizada por seu filho Ricardo e sua nora Fathia para cerca de 140 convidados no Hotel Gran Estanplaza, podem ser contabilizados apenas "pelo lado de fora". "Por dentro eu sou muito jovem, por fora nem tanto", diverte-se. "Creio que me sinto assim por causa do trabalho. Eu leio muito, escrevo, traduzo, dou entrevistas. Tudo o que cai na minha mão, eu leio ou releio, de jovens escritores a clássicos, principalmente os de Chekhov, meu favorito", conta a escritora, canhota por natureza que, mais tarde, se tornou ambidestra por força da docência. Prova de que a sua eterna juventude pulsa dentro de si é o lançamento, logo após o seu aniversário nonagenário, da coleção completa Tapete de Histórias, que reúne dez livros adaptados de clássicos da literatura infantil mundial, entre eles Cinderela, Joãozinho e Maria e Chapeuzinho Vermelho, pela Paulinas Editora. O diferencial de Tatiana para as fábulas que já ganharam centenas de traduções e adaptações é contá-las da mesma forma que seu pai, Aron Belinky: como se fosse um bate-papo, "meio teatro, meio contação de histórias". Para isso, ela criou a personagem Lenita, uma espécie de alter ego, que toda noite conhece um mundo diferente graças ao pai. O humor, que acredita ser fundamental, além de sinalizar inteligência, não a deixa nem nos momentos que podem ser considerados mais críticos. Há pouco mais de dez dias, Tatiana "caiu de madura, que nem uma boba" em seu quarto e feriu a cabeça em um móvel. "Quando vi que todo mundo me olhava assustado, eu disse: "Parem com isso! Eu estou viva!" Susto tal e qual o de uma criança que se aproxima de uma tomada. Nas Livrarias Coral dos Bichos (FTD) O Grande Rabanete (Moderna) Limeriques das Coisas Boas (Formato) Di-versos Russos (Editora Scipione) Choro e Choradeira - Risos e Risadas (Evoluir) Dez Sacizinhos (Paulinas) Limeriques das Causas e Efeitos (Editora 34) Mentiras... E Mentiras (Cia. das Letrinhas) Limeriques de um Bípede Apaixonado (Editora 34) Frases "As coisas me acontecem, elas me procuram e me acham. Não sou eu que saio atrás delas" "Eu sou muito do humor, acho essencial. Gosto de brincar com palavras, ideias, paráfrases, versinhos, limeriques e quadrinhas. Eu ponho o meu trabalho sempre entre aspas, porque é o meu hobby e o meu divertimento, graças a Deus" "Minha mãe era feminista, comunista e dentista. Eu não gosto de nada que termine com ?ista?, parece doença" "Eu respeito demais as crianças para impor conclusões que não sejam as delas" "A palavra é majestade. É a responsável pela grande diferença entre o bicho homem e qualquer outro bicho"

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