Goethe e Schiller, dois amigos e a renovação da cena

Jovens líderes do movimento romântico, eles tinham Shakespeare como modelo

Beth Néspoli, Porto alegre, O Estadao de S.Paulo

17 de setembro de 2008 | 00h00

Em 1781 Friedrich Schiller (1759-1805) publicou numa edição paga do próprio bolso sua peça de estréia, Os Bandidos, que começou a escrever aos 17 anos de idade, um dos textos teatrais paradigmáticos do movimento conhecido como Sturm und Drang, Tempestade e Ímpeto, o romantismo alemão. Oposição ao classicismo e suas normas rígidas, começara a esboçar-se na obra de dois mestres que influenciariam jovens artistas alemães: Johann Herder (1744-1803) e Ephraim Lessing (1729-1781) representantes do pré-romantismo, que exerceram forte influência sobre Schiller e Goethe (1749-1832). Este último igualmente muito jovem, aos 20 anos de idade, se apaixona pelo mito de Fausto, o homem em busca do sentido da existência, que vende a alma ao diabo por um instante de felicidade. Schiller e Goethe se tornariam amigos e líderes do movimento romântico alemão.Interessante notar que Schiller publica Os Bandidos no mesmo ano da morte de Lessing, quando a Alemanha lamentava essa perda - alguns chegaram a vaticinar a morte do teatro alemão. Mas de acordo com Marcelo Backes, que traduziu o texto para uma edição de bolso da L&PM com o título Os Bandoleiros, neste mesmo ano uma resenha publicada no jornal de Erfurt sobre esse texto de Schiller dizia: "Se um dia pensamos em ter um Shakespeare alemão, então é este."O bardo inglês era mesmo modelo para os românticos desde Lessing, que já propunha a quebra das rígidas normas das unidades de tempo e espaço (de acordo com tais regras aristotélicas, toda a ação da peça teria de estar ambientada num único local e em tempo contínuo). Ele propunha ainda uma linguagem que bebesse nas fontes populares da cultura, algo que Goethe fará com pleno êxito, daí ser considerado fundador do idioma alemão. Pena que esse, o idioma, tenha sido justamente o ponto negativo da apresentação de Fausto no festival: o texto da legenda era empolado e escrito em português arcaico, com expressões como "é mister", "peraltice" e "me sabe a", no sentido de ter gosto. Num suporte que exige leitura rápida para apreciar o palco, tal equívoco torna-se obstáculo à fruição.Livre dos entraves clássicos, a ação de Os Bandidos transita do quarto do velho patriarca Moor para a floresta onde seu filho mais velho, Karl, se oculta com seu bando. Nessa peça, o ponto de partida é o embate entre dois irmãos. Franz Moor - misto de Iago, Ricardo 3º e o Edmundo, de Rei Lear - é o prepotente que arma seus estratagemas para ficar com as terras do pai, a quem joga contra o irmão. Já Karl é o jovem rebelde, que vira bandoleiro ao revoltar-se profundamente contra a suposta mesquinhez paterna, na verdade armada por Franz. Com seu bando, Franz mata e saqueia, mas sobretudo desmascara a covardia, a hipocrisia, o abuso de poder e a capacidade de destruir e sujeitar dos poderosos, daqueles que supostamente zelam pelo bem estar social, os representantes dos poderes constituídos, sejam padres, juízes ou nobres. O texto tem numerosas citações, desde as passagens bíblicas à mitologia grega, à obra de Goethe, Shakespeare e Lessing e a fatos conhecidos da História da humanidade, de grandes vultos e batalhas até mesmo à carnificina no Peru liderada por Pizarro, para condená-la, evidentemente. Schiller nasceu na cidade de Marbach, atual Estado de Baden-Württemberg, no sul de uma Alemanha fragmentada, dominada pela nobreza. De família pobre, estava submetido ao poder do duque local. Por conta de Os Bandidos, foi por ele proibido de escrever. Só em 1780 consegue sair de sob as ordens do Duque ao se tornar médico num destacamento militar. Em 1784, ao ler publicamente o primeiro ato de outra obra sua, Dom Carlos, ganha o aplauso entusiasmado do príncipe de Weimar, Carl August, que lhe oferece um título e lhe concede um salário anual. Quatro anos depois, Schiller tem seu primeiro encontro com Goethe, que já estava na corte de Carl August, em Weimar, há mais de dez anos. Amizade que duraria até a morte de Schiller e influenciaria a obra de ambos. Na encenação de Zé Celso é possível esperar que muitas das citações ganhem transporte para o Brasil. E não será uma traição. Afinal, Schiller, como Zé Celso, sempre colocava seus próprios conflitos, e os de seu tempo, no palco. Por exemplo, há várias citações, na peça, à forma como ele foi obrigado a editar seu livro: "Pobres poetas, que não tinham sequer um mísero sapato para usar por terem dado o único par que possuíam à feitura de um livro" diz um personagem num trecho. Em outro trecho, o autor compara um editor literário ao diabo, pela forma como explora o escritor. Antes de tornarem-se bandoleiros, os melhores jovens pensam em publicar livros de poesias. Mas todos os canais estão fechados. Os Bandidos tem como temática central a liberdade expressa em uma dramaturgia vibrante que valeu ao seu autor a admiração dos jovens alemães. Schiller morreu em Weimar, cidade que tem na praça principal uma escultura sua ao lado do amigo Goethe. A repórter viajou a convite da organização do festival

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