Giovanni Levi e a construção da ''ciência da busca infinita''

Autor italiano discute a função do historiador em entrevista no novo número da Revista de História da Biblioteca Nacional

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

21 de fevereiro de 2009 | 00h00

"A História é uma ciência da busca infinita." Assim o historiador italiano Giovanni Levi abre a entrevista concedida ao novo número da Revista de História, da Biblioteca Nacional. Professor das universidades de Veneza e Sevilha e pioneiro da micro-história (que defende a delimitação temática extremamente específica por parte do historiador), ele falou sobre a função do historiador no mundo atual."Por muitos anos, o instrumento fundamental da cultura histórica era o livro, escrevê-los. Hoje somos cercados por outras formas de informação, em especial a televisão. A ciência histórica busca a complexidade e trabalha lentamente para construí-la. Levamos anos de pesquisa para escrever um livro, ao passo que a televisão privilegia a simplicidade e a velocidade. A televisão nos diz: ?Hitler é como Stalin.? A tarefa dos historiadores é demonstrar que Hitler é diferente do Stalin. Mas, com o tempo, o slogan predomina. Os livros são muito mais lentos do que a informação que produz o senso comum historiográfico", diz. E completa: "A História é muito manipulada hoje, justamente porque é com slogans que se chega ao senso comum das pessoas."Na capa, a revista traz um dossiê sobre fé, com foco no "ex-voto", prática de oferecer um objeto em troca de uma graça alcançada. Guilherme Pereira das Neves, professor da Universidade Federal Fluminense, mostra em seu texto como a prática era comum tanto entre os nobres como entre as camadas mais pobres da população - e o artigo vem acompanhado por levantamento de alguns desses objetos, feitos por José Cláudio Alves de Oliveira, coordenador do projeto Ex-Votos do Brasil. Já Juliana Barreto Farias mostra como ainda hoje são muito constantes os relatos de milagres de Norte a Sul do País, elemento que ajuda a manter renovada a crença da população.Em tempos de crise, a revista volta no tempo e relembra como d. Pedro I lidou com a crise financeira no início dos anos 1820, quando o Brasil se encontrava "quebrado", cortesia da corte de d. João que, ao deixar o País, limpou os cofres públicos. O imperador promoveu corte radical de gastos, mas não abriu mão de certos privilégios - para a cerimônia de coroação, por exemplo, ordenou que fossem liberadas todas as "quantias necessárias" pedidas pelo tesoureiro da Casa Imperial.O sambista Wilson Batista ganha perfil de Valdemar Valente Júnior. "Viveu seus últimos anos na mais absoluta miséria. Deixou um sofá, uma geladeira, uma vitrola, um gravador, um caderno com letras de música e alguns troféus. Mas seu maior legado não tem preço: as composições e a malandragem que ele eternizou no imaginário carioca", escreve.

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