Ginga e cor redefinem os clássicos

Dias Gomes, Jorge Amado e José de Alencar ganham novo frescor nas Hqs

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2009 | 00h00

Clássicos em quadrinhos enchem as prateleiras das livrarias nesse gélido anúncio de inverno brasileiro. Há muito que os quadrinistas nacionais perderem o respeito pelos clássicos da literatura e da dramaturgia, o que tem sido bom para ambos: o sagrado não é intocável, não é intangível.Entre as melhores obras que chegam às livrarias estão três versões ambiciosas. Duas delas são de autores também consagrados: João Spacca e Luiz Gê, brilhantes quadrinistas brasucas de reputação internacional. Mas a maior surpresa é de um menos badalado: o gaúcho Eloar Guazzelli, que transformou em graphic novel a peça O Pagador de Promessas, texto de Dias Gomes que, adaptado para o cinema, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962.Com prefácio do poeta maranhense Ferreira Gullar, O Pagador de Promessas (Agir Editora) é uma reinvenção da história com uma bossa de artesanato popular. As cores dos quadrinhos parecem as cores daquelas igrejas de barro que a gente compra como souvenir em Juazeiro do Norte ou Paraty.O drama de Zé do Burro, disposto a cumprir a qualquer custo a sua promessa de entregar a cruz dentro da igreja matriz, e cuja romaria se torna espetáculo e armadilha social, é narrado com maestria por Eloar Guazzelli. Ele diz, em seu posfácio, que "a obra de Dias Gomes prova que é possível fazer arte de qualidade para o grande público" e que buscou levar essa regra para os quadrinhos.De fato, sua adaptação, que parece dar vida à imagem como as manufaturadas pelas artesãs Irmãs Cândido, do Ceará, dá um novo frescor ao trabalho, e parece conectá-lo com histórias cinematográficas semelhantes anteriores, como Bye Bye Brasil e a Caravana Rolidei de Cacá Diegues."Desse modo, O Pagador de Promessas é também uma radiografia da ameaça que representa a cidade à preservação de valores humanos, supostamente mantidos pela gente simples do campo", escreve Ferreira Gular. "Nesse sentido, a peça se aproxima da visão rousseauniana, segundo a qual a civilização corrompe o ser humano, nascido bom e puro."O cartunista João Spacca já tinha antecedentes: fez um belo trabalho em D. João Carioca, sobre a chegada da corte portuguesa ao Brasil. Agora, com a ajuda de alguns amigos "baianólogos", como conta, mergulhou no universo de Jorge Amado com a adaptação gráfica de Jubiabá (selo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras).Publicado em 1936, quando Jorge Amado tinha apenas 23 anos, Jubiabá foi um dos primeiros romances da literatura brasileira a ter um herói negro. Foi grande sucesso e projetou o autor. Lançado na França, recebeu elogio de Albert Camus, em um artigo escrito pelo francês em 1939.Spacca foi pelo caminho do arredondamento, da ginga e da malandragem para contar histórias como a de Lindinalva, e de como foi de filha cobiçada de comendador para as casas de mulheres da vida de Salvador. Ao final, nos brinda,como de hábito, com um sketchbook para que os aficionados possam conhecer os estudos que deram forma a personagens míticos, como Antônio Balduíno e do Pai Jubiabá, além de terem revisita.Já o trabalho de Luiz Gê e Ivan Jaf na adaptação de O Guarani, de José de Alencar (Editora Ática), tem um sentido claramente didático. O volume vem até com um Suplemento do Professor, no qual alunos vão discutir a obra proposta pela série Clássicos Brasileiros em HQ, da editora em questão.Nos anos 80 e 90, Luiz Gê assombrava com seus trabalhos gráficos. Da capa do disco Tubarões Voadores, de Arrigo Barnabé, a álbuns como Território de Bravos, o arquiteto formado pela FAU (onde dá aulas hoje; também leciona no Mackenzie) desbravou todo um universo para os cartunistas que vieram a seguir.O trabalho de Gê em O Guarani é igualmente minucioso e surpreendente. A captura de uma onça pelo índio batedor é uma sequência sublime, e remete ao trabalho do pioneiro Angelo Agostini em As Aventuras de Nhô Quim. Parece uma fusão maluca de O Príncipe Valente com xilogravura de cordel.A adaptação ficou por conta de Ivan Jaf, autor de mais de 40 livros, peças e roteiros cinematográficos. Jaf trabalhou na antiga Editora Vecchi, uma das pioneiras na publicação de histórias em quadrinhos no Brasil, e já tinha sido responsável pela adaptação de outro clássico, O Cortiço, para os quadrinhos."O desfecho de O Guarani simboliza a formação da nacionalidade brasileira, que teria se originado do encontro de Peri (um indígena) com Ceci (filha do colonizador), os únicos sobreviventes." A partir daí, os autores (e os leitores-alunos) discutem a questão da idealização do brasileiro por José de Alencar (1829-1877), entre outros temas.

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