Gibi-calhamaço vasculha a memória

Mais premiada história da década, Retalhos narra percurso de emancipação afetiva e espiritual do autor, Craig Thompson

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2009 | 00h00

Situando-se num extremo oposto do quadrinho underground e mais próximo da tradição do grande romance geracional americano, de autores como Mark Twain e J.D. Salinger, um gibi virou de ponta-cabeça o mundo da narrativa gráfica em 2004. Tratava-se de Retalhos, primeiro gibi de Craig Thompson, um relato autobiográfico em branco e preto que, se o leitor atentar apenas para um sinopse curta, não vai parecer nada aventuresco e sedutor.O primeiro amor, a rivalidade entre dois irmãos, a secura paterna, o inverno massacrante, o verão sufocante, o isolamento geográfico. Tudo que poderia resvalar numa narrativa pueril, no entanto, ganha uma dimensão épica avassaladora no traço claro e limpo de Thompson. Cada quadrinho vasculha minuciosamente cavernas da memória e do inconsciente, e nunca parece ter a intenção de chocar. O gibi tem algumas peculiaridades que o tornam único. Primeiro: é um calhamaço de quase 600 páginas. Segundo: promove uma comovente discussão teológica que passa pela infância, adolescência, chega à maturidade e não se completa jamais. Terceiro: é um rigoroso trabalho de "exorcismo" psicológico, tratando inclusive do abuso sexual que o autor sofreu na infância.Quando saiu Retalhos, foi um auê: ganhou os prêmios mais importantes do gênero, incluindo três Harvey Awards e dois Eisner Awards. Atualmente, o autor trabalha em outro calhamaço, que tem o título de Habibi. "É um tipo de Mil e Uma Noites, um épico amoroso entre uma prostituta e um eunuco numa paisagem oriental apocalíptica", revela. "Já fiz umas 500 páginas, mas creio que serão 700 páginas quando estiver completo", contou o autor, que falou ao Estado por e-mail sobre sua obra (que acaba de ser lançada no Brasil pela Companhia das Letras, R$ 49,00, 592 págs.).Thompson tem 34 anos e viveu a infância e adolescência no campo, uma fazenda remota no Wisconsin, uma região daquelas que está perfeitamente descrita no primeiro capítulo do romance A Sangue Frio, de Truman Capote. Foi nessa ultrarreligiosa e puritana comunidade, que supervaloriza o trabalho duro e a abstinência, o menino sensível cresceu e passou pelo seu grande teste de afirmação pessoal."Criar quadrinhos é algo cru e artesanal. Então, parece um veículo natural para narrar memórias. E, é verdade, é algo terapêutico. Por meio do processo de trabalho, aprendi sobre eu mesmo e sobre encarar questões que nos são assustadoras", conta Thompson, que não se vê nem como escritor nem como ilustrador, mas numa posição no meio disso, a de cartunista. "Penso em Retalhos simplesmente como um gibi, embora goste de pensar que tem potencial para ambições literárias num formato de romance gráfico." As influências de Thompson também não são as mais óbvias. Ele confessa que, nos primeiros anos de sua formação como cartunista, não gostava muito dos quadrinhos underground, dos seus elementos "chocantes e vulgares", mas que hoje já é um fã da "sensibilidade de Robert Crumb". Revela que chorou ao ver Valsa com Bashir no cinema, e que se sente como uma mistura de personagens de Charlie Brown - Linus, Snoopy e o próprio Charlie."A lista (de influências) é infindável, mas provavelmente eu teria de tirar primeiro meu chapéu para o cartunista canadense Chester Brown e a frágil vulnerabilidade de sua memória I Never Liked You. Visualmente, minha maior inspiração foram os cartunistas franceses Baudoin e Blutch. E dois livros com os quais eu me sinto profundamente conectado emocionalmente são Hutch Owes Workin Hard, de Tom Hart, e Pickle, de Dylan Horrock."Sobre o tamanho do volume, que o torna uma avis rara dentro do mundo dos quadrinhos, Thompson confessa que não foi uma ideia original. Teve um precursor. "Parece que o meio estava pronto para um comic book em formato mais longo, e eu estava no lugar certo na hora certa. Usei Lapinot et les Carottes de Patagonie, de Lewis Trondheim, como meu modelo. Esse trabalho foi publicado na França em 1992 pela L?Association, com suas 500 páginas, e eu adorei manusear aquele objeto e senti-lo em minhas mãos. Trondheim diz que ele usou um formato longo, 500 páginas, como uma espécie de exercício para aprender a desenhar, e eu decidi roubar seu exemplo - que melhor desafio pode haver para se provar como artista?", conta. "Para o editor, era um risco financeiro editar um livro tão grande, mas eles reconheceram que havia um vácuo na indústria com leitores que tinham sede de livros de maior fôlego."

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