Gestação da América no Verão Índio

Nas livrarias, esta que é tida como uma das 100 melhores HQs do século 20

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

15 de abril de 2009 | 00h00

Dois italianos visionários: Hugo Pratt, o veneziano aventureiro, o criador do eterno Corto Maltese, e Milo Manara, o veronês que povoou os quadrinhos de bardots e cardinales bonitas. Juntos, em 1987, eles criaram essa que é uma das maiores HQs do século 20: Verão Índio.A HQ só tem sua primeira edição no Brasil agora, 22 anos depois (Conrad Editora, 152 págs. R$ 50). Do que se trata? No início do século 17, na América puritana, um suposto estupro opõe índios e uma família de colonos. A peculiaridade dessa família é que sua matriarca foi marcada a ferro no rosto pelo pastor puritano da comunidade e eles são proscritos, vivem no exílio, entre os índios.Estão ali, na arte de Manara e no texto de Pratt, as bases da construção de uma nação: segredos terríveis e devassos habitando as choupanas, incestos & estupros, servidão sexual e vendettas familiares, heroísmo & selvageria. Tudo consumado num ambiente de deslavada hipocrisia. Na América dos puritanos, as mulheres podiam ser condenadas ao afogamento sob a acusação de "devaneios e divagações espirituais". Dorothy Talbye se rebelou contra isso e matou a própria filha, para poupá-la da vida miserável que as mulheres da colônia levavam. A matriarca da família Lewis, o clã proscrito, foi marcada a ferro com o símbolo de Lilith, primeira mulher de Adão (que se rebelou contra ele, segundo as velhas escrituras). O pastor Pilgrim Black, que se serve sexualmente da própria sobrinha, exerce o poder moralista com mão de ferro.Pratt escreveu o roteiro, Manara desenhou. Neil Gaiman lembra que esse é um dos "pontos altos das histórias em quadrinhos". O desenho de Manara é primoroso, o humor é cáustico e onipresente, o erotismo tingido com tintas do sadomasoquismo. Milo Manara pode ser considerado uma espécie de Sade dos quadrinhos. Já nos anos 2000, com outro parceiro, o chileno Alejandro Jodorowsky, ele chegaria a um limite extremo de abordagem desse tema do poder absolutista corruptor da religião. Foi na história Bórgia - Sangue para o Papa (também editada pela Conrad, 60 páginas, R$ 39).Em Bórgia, Manara entra dentro do Vaticano, no papado de Rodrigo Bórgia e a tirania que exerceu sob o nome de Alexandre VI, ao lado da filha, Lucrécia Bórgia. A venda de indulgências, o nepotismo, a promiscuidade e a ganância pelo poder político, além de cenas de vampirismo, canibalismo, estupros e assassinatos, tingem de vermelho as páginas dessa HQ.Lá em 1987, no entanto, ele tinha ao seu lado o grande aventureiro Hugo Pratt, que soube narrar a corrupção humana, mas também viu a beleza de milharais, pradarias, riachos e do amor materno. ESPETÁCULO FOI JUNTAR CRAQUES DOS "FUMETTI"VIDA LOUCA: É um show a junção de dois dos maiores artistas italianos dos fumetti (como são chamados os quadrinhos na Itália): Hugo Pratt e Milo Manara. Pratt, nascido em Rimini, a pátria de Fellini, foi o último dos grandes desenhistas românticos, que buscava os elementos para suas histórias à maneira de um repórter. Viveu na Argentina, Etiópia, França, Venezuela, Inglaterra, Itália e nos Estados Unidos. Esteve no Nordeste, fazendo reportagem para o Corriere de La Sera sobre Lampião. Em 1967, criou o personagem que era uma espécie de alter ego, o marinheiro cool Corto Maltese. Milo Manara tem 64 anos e é especializado em sadismo, voyeurismo, erotismo de alta combustão. Sua série Click, sobre sexo entre pessoas invisíveis, é um hit planetário. É um bon vivant, e em 2006 desenhou um capacete para o piloto de moto Valentino Rossi.

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