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Gerty Saruê exibe gravuras históricas sobre as construções e sobras da cidade

Exposição na Biblioteca Mário de Andrade reúne conjunto de obras que a artista criou nos anos 1970-80 com suas fotografias

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

19 Março 2015 | 03h00

Na década de 1970, Gerty Saruê não saía às ruas, em São Paulo, sem levar a máquina fotográfica consigo. “Eu me interessava pelas sobras da sociedade e me tocava muito ver as construções destruindo a natureza”, diz a artista que registrou, por exemplo, carretas e detritos de um ferro velho, carros abandonados e a edificação do Shopping Eldorado, perto de sua casa. “Estava muito preocupada com o que hoje é sustentabilidade, mas que, na época, era ecologia”, resume. A paisagem urbana transformava-se, mas as fotografias de Gerty não tinham, afinal, motivação documental – deram, na verdade, base a uma de suas mais belas experimentações, serigrafias e litogravuras que poderão ser vistas na exposição Imagens de Imagens, a ser inaugurada nesta quinta-feira, 19, às 20 horas, na Biblioteca Mário de Andrade.


É de se espantar que o conjunto de 19 gravuras, produzidas por Gerty Saruê entre 1975 e 1984, estivesse até então guardado nas gavetas e mapotecas da artista. “Finalmente, ela se convenceu de que este é um trabalho atual”, afirma Annateresa Fabris, curadora da mostra, ao lado de Andréia Naline, sobre o material praticamente inédito. “Sempre acho que as últimas obras são as mais interessantes”, diz Gerty, nascida em 1930, em Viena, Áustria, mas residente no Brasil desde 1953. Atualmente, a multicriadora vem realizando composições sobre a linguagem com base em artigos de jornais. “Não gosto de coisas legíveis”, define, descrevendo que, nas recentes peças, digitais, ela encobre os escritos com camadas, recompondo o alfabeto numa forma de potencializar palavras de “burocracia pura”.

O mesmo exercício de modificação de significados está presente nas serigrafias antigas reunidas agora na exposição Imagens de Imagens. Naquele momento de sua carreira, Gerty Saruê fotografava bastante e, ao mesmo tempo, estava interessada em experimentar a serigrafia, como conta. No laboratório fotográfico instalado em sua casa (até hoje preservado), revelava suas imagens em preto e branco que, depois, se transformaram em composições com cores pela técnica gráfica. “Os trabalhos partem sempre da fotografia, mas depois você olha com calma e vê que ela isolou elementos”, afirma Annateresa. “Uma ideia que tivemos para a exposição foi mostrar algumas obras seriais que, pelas intervenções cromáticas, se tornam únicas uma vez que a cor cria uma outra leitura, um distanciamento”, completa a curadora, relacionando as peças a trabalhos de Andy Warhol.

Para Gerty Saruê, o artista “não tem de viver nas nuvens”. “Ele é parte da sociedade, não pode ser alheio aos problemas do mundo”, diz a gravadora e desenhista. Nesse sentido, a potência de suas gravuras não se dá apenas por suas composições formais de apuro geométrico e cromático, mas pela riqueza de significados. “O canteiro de obras como cenário teatral, como lugar de criação particular, no qual o inacabado e o intermediário funcionam como metáforas de um processo temporal, que vai revelando aos poucos os segredos de estruturas e texturas, é um dos motivos preferidos de Saruê”, escreve Annateresa Fabris no texto para a mostra.

A curadora também chama a atenção para o “olhar fotográfico” da criadora – nesse sentido, vale dizer que a exposição ocorre em espaço a ser dedicado ao gênero na Biblioteca Mário de Andrade. As “tramas, ora robustas, ora delicadas, poderosos jogos de verticais e oblíquas, linhas de fuga pronunciadas, equilíbrios de massas determinados pela luz” que podem ser identificados nas imagens da artista são, define ainda Annateresa, as características da chamada “fotografia de engenheiro” do século 19.


Gerty Saruê afirma que, dentro do conjunto exposto, uma de suas fotografias preferidas é a de uma serigrafia de 1977 criada em tonalidade cinza. A imagem, relembra, sem muita certeza, foi feita durante a construção do velódromo da USP. “Achei a coisa mais linda o homem descendo uma escada com um peso completamente equilibrado sobre seus ombros”, rememora.

Dentro, ainda, dos temas das construções e demolições, ela também criou composições nas quais relaciona a ação humana com a vegetação. Em um dos trabalhos, destaca-se a “paisagem poluída” de Cubatão, mas há também um outro trabalho no qual faz a grama parecer “brotar por baixo dos ferros”, descreve a curadora. “Gostaria de voltar a fotografar, mas fotografaria outras coisas”, diz Gerty Saruê.

SERVIÇO: GERTY SARUÊ. Biblioteca Mário de Andrade.Rua da Consolação, 94, Centro, telefone 3775-0002. 2ª a sáb., 10 h/ 19 h. Grátis. Até 30/4.

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