Gerson King Combo volta a falar com os corações

Com CD de inéditas, ele canta ao lado do grupo Berimbrown no Sesc Pompeia

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

No palco da Choperia do Sesc Pompeia, Gerson King Combo vai dialogar com a plateia. "Dance com as ancas, brother, solta esse suingue. Mesmo que não saiba dançar, eu vou até você." Usando chapéu com penacho, capa preta e cordão com um dente de tigre, Gerson King Combo é assim - é do soul, gênero que fala diretamente ao coração, o mestre da batida forte e ritmada. Rei do Black carioca, um dos expoentes da soul music nos anos 1970 ao lado de Tim Maia, Cassiano, Carlos Dafé, Banda Black Rio, entre outros, Gerson King Combo está completando 50 anos de carreira. Para comemorar, pretende lançar um DVD (à espera de patrocínio) e um CD (Soul da Paz), produzido pelo grupo mineiro Berimbrown. Gerson e Berimbrown se apresentam no Sesc Pompeia, às 21 h de hoje. Berimbrown mostra o novo CD - Irmandade: Live From Europe Tour 2007. "Ao completar 10 anos, percebemos que o Berimbrown segue as mesmas crenças", diz o vocalista Mestre Negoativo.Soul da Paz traz 13 músicas - 8 inéditas, 2 releituras (Good Bye e Desce Daí) e 3 composições de Berico, guitarrista do Berimbrown. Os parceiros de Gerson King Combo nas inéditas são Tadeu Fernando (falecido) e Djalma Oliveira, seu médico. Em 2003, Gerson Rodrigues Cortes marcou uma consulta porque estava estressado. O trabalho se intensificara nos anos 2000, após 20 anos fora dos palcos. "Estava desacostumado com os holofotes."Os mais jovens descobriram seu pioneirismo - ele teria sido um precursor do rap, ao improvisar falas sobre a base funkeada e ao defender valores que elevam a autoestima do negro. "O problema é que o Djalma só aumentou meu estresse, ao virar meu parceiro", brinca King Combo.Autor de Mandamentos Black (parceria com Pedrinho e Augusto César), gravado por Marcelo D2 em À Procura da Batida Perfeita, King Combo repetia uma frase simples e significativa: "O negro é lindo." Se ele pede para amar como ama um black, a mensagem não é a do exclusivismo. A cor branca, diz ele, é antes de tudo a da paz. Segundo King Combo, hoje existe mais consciência. "O cara diz: ?Eu sou negro e tenho direitos?", conta. "Já tivemos negros nos cargos de governador e ministro." O negro atual seria diferente, ele diz. "Conheci gente que, por ter sofrido, achava que tinha de dar porrada depois." A mágoa não vale a pena, embora King Combo diga que a situação dos negros tenha piorado com a repressão da ditadura militar."Coreógrafo da jovem guarda", Gerson começou a carreira dublando rocks no programa do Jair de Taumaturgo. A virada se deu no fim dos anos 1960, quando Gerson, integrante da banda de Wilson Simonal, viu um show ao vivo de James Brown nos EUA. O nome artístico vem do grupo King Curtis Combo. Era um caminho sem volta para Gerson, nascido em 1943 e morador de Madureira. Lançou dois vinis antológicos - Gerson King Combo (1977) e Gerson King Combo, Volume 2 (1978). Apesar de editados em CD, os elepês são artigos de colecionadores: os preços podem chegar a R$ 250. O último trabalho é Mensageiro da Paz (2001). Para ele, o soul é uma "raiz" dentro dos indivíduos. Por isso é eterno. Tal como o samba, não entra nem sai da moda, está sempre aí, só é pouco notado. "O soul e o samba não estão procurando sobreviver, eles têm seu lugar ao sol." Coisa diferente ocorre com o funk. "O batidão é modismo, não tem compromisso com a música, mas com o sexo." O batidão passará, mas não o samba e o soul. Pois, se "existem as nuvens passageiras", o céu continua no mesmo lugar.

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