TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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German Lorca, aos 93 anos, abre exposição que sintetiza seu olhar moderno em 22 imagens

Mostra na Galeria Millan reúne 22 fotografias clássicas e recentes de um pioneiro da moderna fotografia brasileira; veja galeria

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2015 | 03h00

Em O Tempo Recuperado, último volume de Em Busca do Tempo Perdido, Proust, ou o narrador, conclui que está, enfim, apto a escrever o livro que o leitor justamente acaba de ler. De modo análogo, a exposição que o fotógrafo paulistano German Lorca, aos 93 anos, abre neste sábado, 27, na Galeria Millan, tem ao mesmo tempo um caráter retrospectivo e prospectivo. Fruto de uma parceria entre a Millan e a Galeria Fass, a mostra Travessias traz 22 fotografias – clássicas e recentes – de um pioneiro da moderna fotografia brasileira, ex-repórter fotográfico do Estado e integrante do trio histórico formado no Foto Cine Clube Bandeirantes nos anos 1940 – os outros são Geraldo de Barros (1923-1998) e Thomas Farkas (1924-2011).

Lorca sintetiza, de certo modo, a modernidade dos dois outros amigos. Geraldo de Barros fez da fotografia um veículo para a abstração, rompendo com o caráter documental ao dialogar com outras artes visuais e riscar negativos com ponta seca, fazer múltiplas exposições e intervir radicalmente na imagem. Farkas fez da cidade um signo gráfico, desmontando o conceito de foto como cartão-postal. Lorca, fotógrafo oficial das comemorações do 4.º Centenário de São Paulo, em 1954, registrou a metrópole e seus tipos de modo subjetivo e radical, mas sem perder o fio da história. Entre os analistas de sua obra, o sociólogo José de Souza Martins classifica esse trabalho como a melhor tradução visual da cidade e da emergência de sua modernidade.

Vendo as duas fotos maiores desta página, os dois homens procurando emprego nos classificados de jornal (1948) e anônimos observando aviões no Aeroporto de Congonhas (em 1965), é inevitável que se pense em Lorca como arauto dos novos tempos, mas, como observa Souza Martins num livro sobre o fotógrafo (A São Paulo de German Lorca, Imprensa Oficial), “a fotografia paulistana de Lorca não é desconstrutivista em si”. De fato, o fotógrafo anuncia o fim de uma era sem celebrar essa agonia. Sua ligação com São Paulo é, acima de tudo, sentimental, proustiana.

Criado no Brás, terceiro de oito irmãos, filho de costureira e operário de uma fábrica de charutos, Lorca, descendente de imigrantes espanhóis, conseguiu comprar sua primeira câmera, uma Kodak Bullet, aos 13 anos. Ainda não pensava em ser fotógrafo. Quem primeiro notou sua vocação foi um tio de sua mulher, o escritor Manoel Rodrigues Ferreira, que emprestou ao jovem Lorca sua câmera profissional. Depois, ele compraria de um ex-sócio de Thomas Farkas uma Welti 35 mm. Com ela, fez fotos hoje históricas, como a da menina pulando uma poça d’água, em 1950, que muitos juravam ter sido inspirada em Cartier-Bresson – mais precisamente, na imagem do homem que pula sobre a sombra numa poça atrás da estação Saint-Lazare (foto de 1932).

“Eu nem conhecia Cartier-Bresson naquela época, porque não tinha dinheiro para comprar livros”, conta. “Depois, não é um flagrante, mas uma foto ensaiada, que fiz com minha sobrinha Eunice pulando a poça várias vezes.” Ao ingressar no Foto Cine Clube Bandeirantes, em 1948, ele conheceria finalmente o mundo de Cartier-Bresson, Edward Weston e outros. Mas as coisas não melhoraram. Os associados eram elitistas, faziam fotos tradicionais e não entendiam a revolução formal de Geraldo de Barros e Lorca. “Foi por influência do Geraldo que eu tentei algo mais experimental, porque ele conhecia todos, de Man Ray a Cartier-Bresson, e, além de tudo, virou meu vizinho no Jardim da Glória, usando meu laboratório.”

Depois de fotografar muitos casamentos e abandonar o escritório de contabilidade, Lorca montou um estúdio, virou um consagrado fotógrafo publicitário, mas nunca deixou de produzir fotos autorais. Autoral não só por “construir” imagens como a da sobrinha na chuva. A foto do aeroporto e dos desempregados, nesta página, são flagrantes. Ainda assim, o controle da luz e o enquadramento atestam o olhar sofisticado do fotógrafo. Na exposição, há dois tributos a pintores modernos, o holandês Mondrian e o italiano Morandi, que reafirmam esse refinamento numa releitura da divisão ortogonal das telas do primeiro (a foto de uma janela) e de uma natureza-morta morandiana – ainda mais metafísica que o modelo original.

“Coloquei aquela jarra e os outros objetos na mesa, pensando em Morandi, e simplesmente fiz a câmera tremer”, diz, rindo. “Quanto ao Mondrian, a foto da janela foi feita ao acaso, num dia em que levei minha mãe para embarcar num trem na Sorocabana.” Ele não pensava no holandês ao fotografar com sua Leica a janela da estação, mas, ao ampliar a foto, identificou semelhanças com a ordem ortogonal mondrianesca.

As fotos mais recentes de Lorca, feitas no ano passado, são expressionistas. “Estava em casa e decidi fotografar a luz do sol filtrada e as sombras dos móveis”, diz, modesto, sem imaginar que está inaugurando um novo capítulo na história da fotografia contemporânea.

TRAVESSIA 

Galeria Millan. Rua Fradique Coutinho, 1.360, Pinheiros, tel. 3031-6007. 3ª a 6ª, 10 h/19 h; sáb., 11 h/18 h. Até 25/7. Abre neste sábado, 27, às 12 h.

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