Gente que partiu num rabo de foguete

Balaio Mineiro narra trajetória dos Figueiredo Souza, clã de onde saíram Henfil, Betinho e Chico Mário, irmãos da autora, Wanda

José Maria Mayrink, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

Memória de uma Família Brasileira, informa o subtítulo da capa. Seria mais preciso, sem desmerecer a dimensão nacional, dizer que Balaio Mineiro são histórias de Minas Gerais e de sua gente - no caso, os Figueiredo Souza, que de Bocaiuva se mudaram para Ribeirão das Neves e Belo Horizonte, e dali se projetaram no Brasil e mundo afora. Essa projeção se deve a Betinho, Henfil e Chico Mário, combatentes de boas causas nos anos da ditadura, mas estende-se às suas cinco irmãs - Tanda, Zilah, Wanda, Glorinha e Filó -, as mulheres que lhes garantiram estudos, trabalho e militância política.Wanda Figueiredo, a terceira dos oito filhos do casal Henrique José de Souza e Maria da Conceição Figueiredo Souza que sobreviveram a quatro irmãos falecidos na infância, hesitou muito em escrever esse livro-depoimento, um catatau de 672 páginas que lhe exigiu cinco anos de trabalho e pode ser comprado pelo email balaio.mineiro@gmail.com. Quando se rendeu à insistência de uma amiga, Eliane Brígida Falcão, ela mergulhou na pesquisa de documentos, fez dezenas de entrevistas e desencavou de suas lembranças deliciosos episódios e anedotas da convivência em uma casa sempre cheia de parentes, conterrâneos e colegas de escola. Assistente social e jornalista, Wanda sabia como vasculhar o passado."Foi uma experiência dura. Tive de reviver e sepultar de novo meus pais e quatro irmãos. Os homens hemofílicos, levados pela aids. Zilah, por uma morte súbita que, até hoje, não digeri", revela a autora, ao chorar a perda dos personagens centrais do clã, especialmente Betinho e Henfil, "duas pedreiras" que, confessa na introdução, enfrentou ao sintetizar "suas riquíssimas vidas pós 64". O livro soma à transcrição de entrevistas e documentos referentes à família - avós, pais e filhos - depoimentos de 20 netos, a geração nascida entre 1950 e 1982, que cresceu à sombra dos pais e dos tios famosos, acompanhando de perto ou à distância seus dias de sucesso e de sofrimento.É uma narrativa linear e cronológica. As primeiras páginas são divertidíssimas. A descrição da pequena Bocaiuva, onde Henrique e Maria se casaram e tiveram os primeiros filhos - entre eles José Maria, também hemofílico, que morreu com 3 anos de idade -, resgata lembranças de uma cidade de interior que nenhuma criança vai esquecer. Registra, por exemplo, numa boa reportagem, o eclipse total do Sol, em 20 de maio de 1947, quando Bocaiuva teria sido o melhor lugar do planeta para se observar o fenômeno. Chegaram cientistas do mundo inteiro, entre eles o belga naturalizado norte-americano George Van Biesbroeck, empenhado em comprovar (e as fotos do eclipse teriam comprovado) a teoria da relatividade de Einstein.A família Figueiredo Souza transferiu-se para Ribeirão das Neves em 1938, quando José Maria Alkmin, primo de dona Maria, foi nomeado diretor de uma penitenciária modelo e convidou seu Henrique para cuidar do almoxarifado. As crianças conviviam com os presos no presídio, pois não havia grades. Não havia também rebeliões, exceto a revolta de um detento que, armado de uma faca, protestava contra o tamanho de sua condenação. Alkmin entrou sozinho no campo de futebol, onde o preso se refugiara, para tentar convencê-lo a se render. Seu argumento de mineiro: "Você está revoltado, e com toda razão. Sua pena é muito alta. Mas raciocine comigo: você não vai pagar esses 100 anos de uma só vez. Vai pagar um dia, depois outro dia, depois outro. Vai ver que não será tão penoso. Me dê esse facão e vá trabalhar." O detento cedeu. Em 1944, a mudança para Belo Horizonte. Seu Henrique foi trabalhar como gerente do Serviço Funerário da Santa Casa, da qual Alkmin era o provedor. Os meninos brincavam de esconde-esconde no depósito de caixões, uma farra da qual Henfil, nascido na capital, se lembraria divertidamente até o fim da vida. As filhas mais velhas arrumaram emprego para ajudar nas despesas de colégio dos irmãos. O sonho de dona Maria era que todos estudassem. Betinho brilhava nos boletins, mas Henfil não queria nada com o batente. Matava aulas para brincar com os amigos, entre os quais os jornalistas Lucas Mendes e Ricardo Gontijo, companheiros de remo no lago do Parque Municipal. Henfil não gostava dos livros, mas logo descobriu a vocação de cartunista que o projetaria na imprensa.Balaio Mineiro dedica quase 200 páginas às sequelas que o golpe de 1964 deixou na família. Ligados aos movimentos Juventude Estudantil Católica (JEC), Juventude Universitária Católica (JUC) e Ação Popular (AP), todos sofreram com a repressão - do medo à prisão e ao exílio. Essas páginas são ricas em depoimentos e, sobretudo, na transcrição de cartas e artigos que Betinho e Henfil escreveram no período. A própria Wanda foi presa, ao ser denunciada por uma ex-colega de faculdade que se hospedara em seu apartamento em São Paulo. Além de alguns textos inéditos, o livro transcreve exemplos bem pinçados das cartas à mãe que Henfil publicava na revista IstoÉ.Wanda Figueiredo revela detalhes das agruras de Betinho no exílio, onde era socorrido pela generosidade de Henfil, que estava ganhando bom dinheiro e também ajudava dona Maria e as irmãs. A resistência da família à ditadura nem precisou de capítulo à parte, pois se reflete em todas as páginas. Betinho, Henfil e Chico Mário foram os que mais se projetaram nessa luta, de 1964 até depois da anistia. Testemunhos de companheiros do Pasquim e da militância política resgatam gestos de coragem e solidariedades dos três filhos homens e de suas irmãs.Quando voltou a democracia e parecia chegar a hora de a família viver em paz, agravou-se o estado de saúde dos portadores de hemofilia. Henfil, Chico Mário e Betinho, que a duras penas conseguiam conviver com a doença, perderam a guerra com a chegada da aids. Wanda atribui a morte dos irmãos à "irresponsabilidade de médicos donos de bancos de sangue, que lhes injetaram nas veias sangue contaminado". Dependentes de transfusões constantes, os três sabiam que corriam risco de contrair a aids. Henfil fez essa previsão no carnaval de 1986, dois anos antes de morrer num hospital. E Betinho, que resistiu nove anos ao HIV, escreveu um comovente depoimento sobre sua luta, numa carta-testamento deixada para sua mulher. O texto é uma das preciosidades do Balaio Mineiro.

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