Garoto prodígio é um Zelig musical

Disco recente, March of the Zapotec, foi gravado no estúdio do Arcade Fire

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

O novo trabalho do Beirut, March of the Zapotec, reúne dois EPs (Extended Plays) que o artista soltou a conta-gotas nos últimos dois anos. O trabalho reafirma o talento de Zach Condon em emular sons estranhos à sua cultura natal, como um Zelig musical.Agora, ele mistura os metais da música mariachi à canção tradicional francesa, ao synth pop dos anos 80, o europop, a house dos 90 e - sua maior fixação - a música dos Bálcãs. São 11 temas, que abrem com um sample de uma festa de rua em El Zócalo.Além da influência da música mexicana, que ele buscou deliberadamente, Zach agora também já é inconscientemente impelido a buscar uma uniformidade sonora que atravessa temas aparentemente díspares, como La Llorona e The Shrew (canção que ele escreveu quando tinha 17 anos).Músicas como My Wife e The Akara, com seu tom de parada de rua, também traem certo sabor do pós-Guerra, algo de anos 1940 que surge muito naturalmente nas construções sonoras do Beirut. Drama & riso convivem sem cerimônia nas ousadias do garoto. On a Bayonet vai em busca de algum eflúvio da guerra civil mexicana, um espírito zapatista transpassando os metais. My Night with the Prostitute from Marseille é sua rendição ao pop oitentista, época que ele também não viveu, mas que o influenciou mais diretamente. É por aí também que se situa No Dice, a faixa que fecha o disco, dance e pop e ingênua como o syntpop do Human League.Venice é um climão onírico de cartão-postal, uma trama musical urdida pela eletrônica. The Concubine tem sabor de trilha sonora de filme, como as do francês Yann Tiersen. Algo parece lembrar as investidas musicais do Arcade Fire? Não é por acaso. Zach gravou 80% do disco no estúdio do Arcade Fire em Quebec, no Canadá. Sua pouca idade é um trunfo: ele não tem medo de parecer ridículo, e é por isso que se sai tão bem misturando alhos com bugalhos.

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