García Márquez, por trás da fama

Vida, obra e figura pública do escritor se misturam em livro de Gerald Martin

Christopher Tayler, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Gabriel García Márquez: A Life, recém-lançado pela Bloomsbury na Europa, começa com uma afirmação apropriadamente grandiosa sobre o seu tema. Gerald Martin, o autor, acredita que Gabriel García Márquez é o único romancista da segunda metade do século passado tão respeitado em todo o mundo quanto os gigantes da primeira metade. A princípio, parece a rotineira bajulação de um biógrafo. Mas, quando Martin termina de detalhar a extensão inspiradora do renome de García Márquez, o trecho ganha maior significado.Quando a autobiografia do romancista foi publicada em 2001, Hugo Chávez exibiu um exemplar durante sua transmissão televisiva semanal, pedindo a todos os venezuelanos que lessem o livro. Chávez, diferente de Bill Clinton, François Mitterrand, Felipe Gonzales, Fidel Castro e a maioria dos presidentes latino-americanos que assumiram seus cargos desde a década de 1970, não era sequer amigo pessoal do autor: em comparação, Vicente Fox, do México, recebeu seu exemplar das mãos do próprio Gabo. Clinton decidiu aparecer na festa de comemoração dos 80 anos de García Marques, junto com cinco ex-presidentes colombianos e o rei da Espanha. Castro celebrou a entrega do Prêmio Nobel de Literatura ao seu amigo em 1982 comprando para ele um estoque de caviar em Moscou, no caminho de volta do funeral de Brejnev.Gabo também conta com muitos fãs entre os menos poderosos. Mesmo os seus críticos mais ferozes concordam que Cem Anos de Solidão é o principal romance latino-americano do século 20. O "realismo fantástico" tornou-se referência aos autores que se esforçavam para adaptar a vivência do mundo em desenvolvimento às formas herdadas do romance europeu. E García Márquez é um romancista genuinamente popular, com muitos seguidores entre os não-intelectuais e recebendo, na América Latina, o status de herói local. Em 1982, um jornalista colombiano perguntou a uma prostituta nas ruas se ela tinha ouvido falar sobre o Nobel de Gabo. Sim,um freguês tinha acabado de contar a ela na cama a respeito do prêmio. García Márquez tinha 40 anos quando recaiu sobre ele o status de celebridade. Antes de Cem Anos de Solidão ser publicado, ele era um nome menor em meio ao boom literário dos anos 60 na América Latina. Alejo Carpentier, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa eram os nomes a se acompanhar, e apesar de os seus quatro livros anteriores terem recebido a admiração daqueles que se dispuseram a lê-los, García Márquez enfrentava dificuldades com a sua escrita. Trabalhava durante meio período numa agência de publicidade na Cidade do México quando, em 1965, durante uma viagem ao litoral, as primeiras linhas da sua obra prima flutuaram para dentro do seu cérebro. O ano seguinte foi passado dentro do seu estúdio em meio à fumaça dos cigarros - e quando ele emergiu com o manuscrito completo, tinha uma boa idéia da direção que sua carreira estava tomando. Conforme García Márquez sempre afirmou, e como demonstra Martin num detalhamento exaustivo, as suas dificuldades iniciais na escrivaninha não eram provocadas pela falta de material. A principal revolução pela qual sua obra passou na Cidade do México consistiu em descobrir uma maneira de abordar as histórias que ele carregou consigo durante toda a vida. Nascido em 1927, sua mãe era filha de um veterano de guerra; o pai, um telegrafista bonito, mas irresponsável. O futuro autor passou seus primeiros anos de vida sendo criado pelos avós em Aracataca. O avô, coronel Nicolás Márquez, era cheio de histórias da sua época de serviço na Guerra dos Mil Dias. A esposa do coronel, Tranquilina, via fantasmas e sinais de mau agouro por toda parte.A sangrenta política colombiana foi vivamente retratada na sua obra desde o início. Aracataca gozou de um surto de desenvolvimento ao estilo do velho oeste dos EUA quando uma empresa americana se instalou na região, mas a cidade entrou em declínio depois de 1928, quando soldados massacraram agricultores grevistas. A indignação provocada por estes acontecimentos levou ao breve mandato de um regime menos reacionário, que fundou uma escola modelo em Zipaquirá e concedeu a García Márquez uma bolsa de estudos. De lá ele passou para o jornalismo e para a escrita de pequenos contos elaborados sob o disfarce de estudos de direito, absorvendo a obra de William Faulkner e Virginia Woolf sob a orientação de um círculo literário de Barranquilla. Enquanto isso, "La Violencia" - uma guerra civil em pequena escala ocorrida nas áreas rurais - se aprofundava. Desgostoso com o regime de censura, García Márquez deixou o país e rumou para a Europa em 1955. Depois da fama, a vida do autor torna-se inevitavelmente mais opaca. Martin não oferece uma explicação definitiva para a ocasião em que Vargas Llosa, um ex-amigo do autor, acertou em García Márquez um soco na cara em 1976. Ele também reconhece a derrota quando o assunto é especular acerca dos motivos que levaram ao casamento do autor com Mercedes Barcha, sua esposa desde 1958. O ativismo destacado de García Márquez desde os anos 1970 significa que a política domina cada vez mais a história da sua vida, e Martin não consegue evitar a perplexidade - o romancista é claramente atraído por homens poderosos, mas há poucas provas de que ele tenha exercido grande influência sobre eles.No entanto, na maior parte do tempo, o tom de Martin é de uma admiração infalível, quase cômica, testemunho ao charme de Gabo considerando-se que o biógrafo passou 17 anos pesquisando para escrever este livro. Ele parece ter entrevistado a família toda e os seus agregados, além do próprio García Márquez, Mercedes, Fidel Castro e cada um dos políticos colombianos. No processo, ele próprio foi transformado em mito. "Descobri ser impossível", escreve ele, "matar o mito que o próprio García Márquez disseminou, chegando ao ponto de eu mesmo ter certa vez passado uma noite de chuva sentado num banco de praça em Aracataca para ?absorver o clima? da cidade". Martin também é muito versado na literatura latino-americana em geral, estabelecendo contextos e oferecendo análises críticas entusiásticas do tipo que em geral se perde numa obra deste tamanho. "Não se preocupe", disse a ele García Márquez ao se recusar a conversar sobre uma antiga namorada, "serei qualquer coisa que você disser que eu sou". Nesse sentido, o romancista escolheu bem o seu biógrafo. "Que coisa", disse ele supostamente quando o nome de Martin foi proposto, "suponho que todo autor de respeito precise de um biógrafo britânico".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.