TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Galeristas apostam em mestres da construção em 2015

Ano começa com Willys de Castro e segue com a geração dos anos 1920; mercado investe em quem viu nascer a abstração no País

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

26 Dezembro 2014 | 09h58

A ascensão dos preços da arte construtiva no mercado é real, mas só isso não explica a rara conjunção de interesses que levou curadores a eleger artistas dessa tendência para grandes mostras realizadas neste fim de ano e em 2015. O que une esses nomes não é apenas a filiação a uma vertente essencial da arte brasileira do século 20, mas o fato de todos terem recebido apoio do crítico, poeta, colecionador e psicanalista grego de origem turca Theon Spanudis (1915-1986), cujo centenário de nascimento será comemorado com uma exposição, em novembro do próximo ano, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), para mostrar a coleção que ele doou à instituição em 1979. Esse valioso acervo tem 453 obras de mestres construtivistas, entre eles Volpi.

Spanudis chegou ao Brasil nos anos 1950, trocando a psicanálise pela crítica de arte, em 1957, quando iniciou sua coleção e integrou-se ao grupo dos neoconcretos cariocas como representante do movimento em São Paulo, assinando, dois anos depois, o Manifesto Neoconcreto redigido por Ferreira Gullar. Pelo menos quatro nomes exaustivamente mencionados em entrevistas por Spanudis, nos anos 1980, ressurgem 30 anos depois em exposições programadas para 2015 ou abertas recentemente, caso da mostra dedicada ao pintor Arnaldo Ferrari (1906-1974), em cartaz na Galeria Berenice Arvani. Os outros três nomes são: Judith Lauand (com uma exposição que vai até 10 de janeiro, na galeria Drisco Babcock, em Nova York); Niobe Xandó (1915-2010), que será lembrada em seu centenário de nascimento pela Galeria Marcelo Guarnieri (em fevereiro); e Jandyra Waters, que, aos 93 anos, volta a expor, na Galeria Almeida & Dale (ainda no primeiro semestre).

Começando por Arnaldo Ferrari, a evolução dos preços do pintor, que viveu de maneira modesta, é clara, desde sua redescoberta, em 2006, com uma retrospectiva na mesma galeria Berenice Arvani. A galerista conta que esses preços acompanham o interesse de colecionadores de fora, atraídos pela arte construtiva brasileira, ainda acessível quando comparada às cotações estratosféricas dos artistas europeus dessa mesma escola. Na abertura da mostra, ela acabara de vender uma têmpera sobre papel de sua coleção, assinada por Ferrari em 1968, quando o comprador, um industrial japonês, foi abordado minutos depois por um jovem colecionador brasileiro, que lhe ofereceu três vezes o valor pago. Detalhe: o japonês recusou. “E não adiantou ele aumentar a oferta”, garante a galerista

Não era assim em vida. Lourdes Xandó, filha da pintora Niobe Xandó, grande amiga de Ferrari, lembra que o pintor tinha um ateliê no centro de São Paulo e vivia de maneira precária, usando todo e qualquer tipo de suporte para sua pintura. Já Niobe, que viveu em Paris e Londres, conseguiu realizar algumas exposições na Europa, embora não fosse exatamente disputada pelo mercado. Morta em 2010, há 25 anos ela não é objeto de uma mostra comercial em São Paulo, embora a Pinacoteca tenha dedicado a ela uma retrospectiva com 190 obras, em 2007. O curador Antonio Abdalla, que escreveu o livro de Arnaldo Ferrari, lançado este mês, e prepara uma edição comemorativa do centenário de Niobe Xandó, analisa a súbita virada no mercado como um reconhecimento, ainda que tardio, a esses artistas, cuja convergência de linguagem é evidente. Eles devem algo ao cromatismo e à sintaxe de Volpi – daí que todos os volpistas têm em seus acervos obras dos citados pintores.

“No caso de Ferrari, essa proximidade é ainda mais relevante, pois ele se integrou aos pintores do arrabalde, que pintavam na periferia de São Paulo, aproximou-se do Grupo Santa Helena e fez casarios e fachadas, depois diluídos em geometrizações, como na pintura de Volpi”, observa. “A evolução dos dois se deu, enfim, de maneira muito parecida”, analisa.

Embora todos os quatro artistas agora homenageados – Arnaldo Ferrari, Judith Lauand, Niobe Xandó e Jandyra Waters – estivessem próximos de outros colegas de tendência concreta, todos trabalhavam de maneira independente. Judith Lauand foi a única mulher a participar do grupo Ruptura, que, em 1952, rompeu com a arte naturalista e marcou o advento do concretismo no Brasil. Mesmo não tendo participado de sua fundação (ela se juntou ao grupo de Waldemar Cordeiro em 1955), Judith Lauand é considerada parte dele desde sua primeira individual, em 1954, na extinta Galeria Ambiente.

O galerista americano John Driscoll, que patrocina a primeira exposição da pintora em Nova York, exibindo telas dos anos 1950 até 2000, destaca a “originalidade” da obra de Lauand e sua “filiação aos princípios formais de Josef Albers”. A cor como luz, problema albersiano, é também uma questão da pintura de Jandyra Waters, que volta ao circuito para mostrar seus novos trabalhos. Nascida em Sertãozinho, ela viveu durante anos na Inglaterra, voltando a tempo de encontrar a arte brasileira dando seus primeiros passos em direção ao abstracionismo, nos anos 1950. Ela ainda não alcançou a repercussão internacional nem a cotação de Judith Lauand, mas é apenas uma questão de tempo. 

Feiras ajudaram a divulgar artistas fora do circuito

“O mercado cresceu e as feiras de arte trouxeram ao Brasil curadores estrangeiros que estão ajudando a promover a arte brasileira moderna e contemporânea lá fora”, diz o marchand Antonio Almeida, que, além da exposição de Jandyra Waters, abre a galeria Almeida&Dale em 2015 com uma retrospectiva de Willys de Castro.

A exposição vai reunir 40 obras de coleções particulares, que terá como curadora Denise Mattar. Há dois anos, Willys foi objeto de uma retrospetiva na Pinacoteca do Estado, que exibiu 130 trabalhos entre pinturas, desenhos, objetos e estudos, realizados entre 1952 e 1988. Um dos principais artistas neoconcretos, Willys se notabilizou por seus objetos ativos e pluriobjetos, que se completam com a interação do espectador em movimento. / A.G.F.

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