Mário Cravo Neto
Mário Cravo Neto

Galeria Millan exibe obras raras de Mário Cravo Neto

Com curadoria do artista Bené Fonteles exposição do fotógrafo reúne trabalhos nunca vistos, feitos em Nova York e no estúdio de Salvador,

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2019 | 03h00

O fotógrafo, escultor e desenhista Mário Cravo Neto (1947-2009) recebe uma homenagem no décimo ano de sua morte com a exposição O Estranho e O Raro, que será aberta hoje, 13, no anexo da Galeria Millan com curadoria de seu amigo e também artista Bené Fonteles. São 52 fotos e uma instalação selecionadas entre a vasta produção do artista baiano, composta por mais de 100 mil itens, acervo hoje sob a guarda do Instituto Moreira Salles (IMS), que prepara uma mostra retrospectiva do fotógrafo em 2020.

Fonteles conheceu Mário Cravo Neto em 1975, apresentado pelo pai do fotógrafo, o escultor Mário Cravo Júnior. Fizeram alguns trabalhos juntos, entre eles capas de discos – três de Fonteles e um de Gilberto Gil. O fotógrafo tinha acabado de sofrer um grave acidente automobilístico, ficando imobilizado por um ano. Nem por isso parou, documentando todo o processo de sua recuperação em fotos e super-8, como lembra Bené Fonteles.

Dois anos depois do primeiro encontro, já morando em Salvador na casa da Boca do Rio, de Mário Cravo Neto e sua mulher Eve, Fonteles testemunhou a construção de uma escultura do fotógrafo feita com a colaboração de passarinhos, que recolheram as fibras sintéticas de uma peça sua para fazer um ninho num cajueiro do jardim. Ele integra a exposição, cheia de reminiscências pessoais.

Na mostra há séries raras, como o registro dos usuários do metrô de Nova York, nunca antes exibida, e a igualmente inédita e estranha série que faz uso de lonas usadas, telhas velhas, instrumentos de lavoura e até máquinas fotográficas queimadas, que o fotógrafo recolheu das cinzas de uma fogueira ateada por bandidos em fuga, após um assalto ao estúdio de Cravo Neto.

Como o cineasta russo Tarkovski, a obsessão do fotógrafo em esculpir o tempo fez Cravo Neto trocar objetos novos por velhos – como as lonas usadas que comprava de caminhoneiros – apenas porque esses registram algo impalpável, mas visível. É preciso lembrar, recomenda Fonteles, que o fotógrafo baiano foi aluno do norte-americano Jack Krueger, um dos precursores da arte conceitual, e foi influenciado pelo italiano Emilio Vedova, cuja obra marcou os artistas ligados à arte povera nos anos 1960.

De fato, é possível identificar ecos de Vedova e Tapiès na construção dessas fotos de estúdio em que as lonas velhas servem de cenário para a “escultura do tempo” de Cravo Neto. Insetos interagem com o tecido rústico, criando uma insólita composição. Objetos encontrados ao acaso num antigo casarão abandonado ao lado do Mercado Modelo, em Salvador, são acoplados às lonas, por vezes rasgadas, resultando no estabelecimento de relações contrastantes, como o de uma enxada e telhas de zinco, foto de natureza pictórica.

Um lado menos conhecido de Mário Cravo Neto, associado automaticamente ao registro do povo baiano e do candomblé, emerge nessa mostra em que o curador conseguiu resgatar registros raros como as imagens da citada série dos passarinhos, Fiberglass Nest (1977), e da série Terrarium, que fez quando residia em Nova York – ele viveu lá entre 1968 e o começo dos anos 1970, quando retornou ao Brasil. “São obras feitas com areia colorida, como as garrafas típicas do Nordeste, e placas de acrílico, das quais só restaram 13”, conta Fonteles, apontando as reproduções em preto e branco desses trabalhos.

Há também na mostra uma série de retratos feitos por Mário Cravo Neto que adotam como modelos seus conterrâneos. Fonteles, que foi fotografado inúmeras vezes pelo amigo, observa que sua relação com a luz e os corpos está estreitamente ligada ao trabalho do fotógrafo como escultor. “Ele esculpe o corpo dos modelos”, resume, explicando que, ao contrário de outros colegas, sempre dispensou a parafernália tecnológica para se concentrar na luz baixa, natural, como se estivesse pintando uma tela com o chiaroscuro de Caravaggio. Sua sofisticação visual foi uma herança do pai que ele transmitiu ao filho, o também fotógrafo Christian Cravo.

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