Galeria em Berlim exibe coleção da família Boros

Nova mostra foi instalada em abrigo antiaéreo

Eduardo Vessoni , ESPECIAL PARA O ESTADO

13 de julho de 2014 | 02h00

BERLIM - Raros endereços do planeta conseguiram ser tão mutantes como essa galeria de arte alemã. À imagem e semelhança da Berlim irrequieta que se reinventa, diariamente, do lado de fora, a Sammlung Boros está instalada no interior de um bunker sisudo com 18 metros de altura que nasceu como abrigo antiaéreo, transformou-se em penitenciária durante a ocupação soviética pós-guerra, foi até armazém têxtil e, pouco antes de a capital alemã se ver dividida pelo muro ideológico que separaria civis e sistemas políticos, virou o Bunker das Bananas.

Após a passagem devastadora dos russos pela Alemanha e a queda do muro mais famoso do mundo, o país nunca mais seria o mesmo. Nem o bunker.

Nos anos 1990, foi cenário de festas sob o som alucinado de música eletrônica, abrigou eventos ilegais que lhe renderiam o título de o "clube mais pesado da Terra" e perdeu a vergonha ao ser sede de uma feira da indústria erótica.

Mas Berlim não se apega ao passado e logo trata de fazer arte com a própria trajetória. Ou fazer história com arte.

Inaugurada em 2008, essa galeria de arte contemporânea conta com 700 peças no acervo, que está abrigado em uma área protegida de mil m² com 80 salas espalhadas em seus cinco andares, que, na época, poderiam abrigar até três mil pessoas.

Durante as visitas, obrigatoriamente, guiadas para até 12 pessoas pelas salas abertas ao público, fotos artísticas se fundem ao lado de pichações preservadas da fase em que o local funcionava como inferninho; velhas paredes de concreto emolduram instalações expostas em espaços pintados de branco; e vergalhões enferrujados saltam em ambientes reformados para abrigar a nova galeria.

No tour de 1h30, entre avisos antigos de "proibido fumar" e portas descascadas, nunca se sabe o que é arte e o que é história nesse bunker de paredes que chegam a ter até dois metros de espessura e que ainda carrega o ar pesado em que a cidade viveu sob o rígido sistema socialista da antiga União Soviética.

E como dizem os próprios guias, visitar a Boros Collection é como chegar à casa de alguém. Não na dos soviéticos comunistas daquela época, mas na casa de Christian Boros, o bilionário excêntrico da área de mídia que arrebatou o bunker para abrigar sua coleção particular de arte e sua residência no terraço, uma caixa envidraçada de 450 m² que também é conhecida como "o castelo de Christian Boros".

"Eu sempre quis viver com a minha mulher junto com arte. Nunca quis uma construção para nós e outra para as obras de arte", afirmou Boros em uma entrevista para a revista alemã Freunde von Freunden.

Assim como deve ser uma educada visita programada à residência de alguém, a casa da família Boros também é aberta com horário marcado, embora as portas de ferro da entrada principal sigam sendo empurradas, todo o dia, pelos que passam do lado de fora, na esquina das Reinhardtstrasse e Albrechtstrasse, no moderninho bairro Mitte.

A primeira temporada de exibições ocorreu entre 2008 e 2012, atraindo 120 mil visitantes em 7.500 visitas guiadas.

Entre esculturas, instalações e trabalhos artísticos feitos com luz, o público percorreu aquelas antigas salas de pé-direito alto para conhecer obras como a do escultor alemão Tobias Rehberger, que exibiu peças que faziam referência aos prazeres da vida (na sua versão mais descolada) como comer, conversar e fumar; e Anselm Reyle com seus objetos em grande escala recortados por jogos de luzes.

Atualmente, 130 obras do acervo particular de Boros criadas por 23 artistas estão em exposição no bunker, uma coleção que inclui trabalhos desde o início dos anos 1990, logo após a queda do Muro do Berlim.

Trilha. Alguns dos destaques da exposição atualmente em cartaz são as imagens do fotógrafo Wolfgang Tillmans, que flutuam emolduradas nas desgastadas paredes de concreto de acesso às escadas e o relógio espelhado da polonesa Alicja Kwade (Singularität) em que a artista dita a trilha sonora dos primeiros andares com a batida constante e incômoda de sua obra que reverbera amplificada pelas salas vizinhas.

Curiosamente, nenhum dos trabalhos expostos está etiquetado com dados da obra. Assim como o próprio Boros confessou, no dia da inauguração da Sammlung Boros #2, a segunda exibição do acervo, "isto não é um museu, nem uma instituição. É um porão recreativo".

Por isso, é tão necessário o acompanhamento de um guia local para contextualizar cada uma das peças expostas.

No grupo de visitantes do qual fiz parte, um senhor sueco acompanhava a família e parecia mais interessado no motor elétrico que dava vida à instalação do artista Michael Sailstorfer do que no próprio conceito artístico da obra Zeit ist keine Autobahn, enquanto alguns dissidentes se desconectavam da fala disparada do guia, desviados por algum detalhe arquitetônico preservado da época. Deu até para testemunhar um visitante (in)discreto que foi logo metendo o dedo para sentir a textura de uma das obras expostas.

Para sorte, fotografias no interior do bunker são proibidas, o que nos priva de ver cenas de visitantes em selfies constrangedores ao lado de obras impactantes como o quebra-cabeça em forma de árvore feito com objetos velhos pelo artista chinês Ai Weiwei, o ativista que ficou conhecido em todo o mundo pela foto em que aponta o dedo do meio para a Cidade Imperial, em Pequim; ou do jogo de imagens de Dirk Bell, que reflete em espelhos postos no chão seus desenhos abstratos de 32 m² instalados no teto.

Mesmo 24 anos depois da primeira compra de uma obra, em 1990, Christian afirma que a arte é o seu único interesse e ainda parece inclinado a correr riscos. Não só por conta da aquisição daquela construção de traços nazistas que serve como residência para a família Boros (a mulher Karen e seu filho também moram no local), mas também pela compra de obras que Christian nem sempre tem certeza se caberão naquelas salas de dimensões intimistas, como a árvore de seis metros de Ai Weiwei, de 2010, intitulada Tree.

Conhecido também como 'Friedrichstrasse Imperial Railway Bunker', o local foi inaugurado em 1942 sob supervisão do arquiteto-chefe de Adolf Hitler, Albert Speer, para a proteção de civis, durante os anos em que o país esteve sob administração nazista.

A Alemanha termina a Segunda Guerra Mundial em escombros, com cidades 90% destruídas, como Dresden e Leipzig, e dividida entre os países aliados (União Soviética, Estados Unidos, o império britânico e a França). É nessa época que o Exército Vermelho ocupa o bunker para abrigar prisioneiros de guerra, nos quatro anos seguintes, até que o lugar fosse transformado em armazém têxtil. O local não foi destruído após a guerra, como muitos outros bunkers, por estar localizado em uma área residencial.

Em 1957, virou o Bunker das Bananas, onde a estatal VEB Obst Gemüse Kartoffeln armazenava em seu interior de temperaturas estabilizadas e sofisticado sistema de ventilação os produtos trazidos de Cuba, como as frutas tropicais (principalmente laranja e banana, que deu nome ao bunker), para abastecer a Alemanha Oriental até que, em 1990, com a reunificação do país, aquele caixote monumental de concreto passaria a ser administrado pelo governo federal alemão.

Festinhas. A queda do Muro de Berlim, em 1989, traria ao país um certo espírito coletivo de liberdade e de busca do tempo perdido. É nesse contexto que o bunker passa a abrigar eventos capazes de fazer soviéticos revirarem em seus mausoléus, como raves e festinhas fetiches de 1992, regadas a música eletrônica; em 1995, abrigaria a feira erótica Sexperimenta e a festa The Last Days of Saigon que, embora proibida pelas autoridades, foi realizada no local na virada daquele ano.

Fechada desde então, mas com alguns coletivos esporádicos de arte, a construção foi comprada por Christian Boros, em 2003, com o objetivo de guardar sua coleção privada de obras de arte. Contemporâneas, diga-se de passagem.

O projeto arquitetônico de Jens Casper foi um trabalho árduo que exigiu mudanças estruturais significativas naquelas paredes grossas, de modo a serem criados novos ambientes que se interconectassem no antigo labirinto claustrofóbico, como a retirada de 150 mil litros de concreto para a criação de vãos que permitissem ao público avistar os pisos inferiores. Dizem até que Casper foi responsável pela desconstrução do bunker para, por fim, reconstruí-lo.

O local reformado teve suas primeiras instalações mostradas ao público, quatro anos depois, e a galeria assistiu à sua primeira exposição, em 2008.

Berlim nunca mais foi a mesma. Muito menos aquele bunker fadado a ser apenas história.

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