Galera, a Mônica não é mais BV!

Para quem não convive com jovens, BV é ?boca virgem?: Mauricio conta tudo

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

14 Novembro 2008 | 00h00

Como o quadrinista Mauricio de Sousa antecipou com exclusividade para o Estado, o primeiro beijo entre a Mônica e o Cebolinha já está estampado na capa do número 4 da nova série da Turma da Mônica Jovem, que chega às bancas no dia 22. A imagem certamente vai atrair a curiosidade da criançada de 7 ou 8 anos, mas o sucesso nessa faixa etária torna maior o desafio do quadrinista. Afinal, a série recebeu uma enxurrada de críticas justamente de seu público-alvo, a garotada entre 12 e 16 anos, que cobrou mais ousadia dos roteiristas. Nessa entrevista, Mauricio de Sousa fala sobre os rumos da série que, adolescente ou infantil, pretende ser sempre uma "revista de família".A idéia de criar a Turma da Mônica Jovem veio junto com a de fazê-lo no estilo mangá?O projeto original não era tão mangá. A proposta inicial está no número zero, criado há uns quatro anos, e seguia a linha de um desenho mais sofisticado para atingir a criançada mais velha. Mas veio o lançamento de Ronaldinho Gaúcho, outros da turma infantil pelo mundo, e esse projeto, que exigiria muito cuidado e atenção, foi sendo postergado. Agora resolvemos enfrentar o desafio e o estilo mangá surgiu por conta da sua influência sobre a criançada. Mas o que fazemos não é exatamente mangá, é um produto mestiço, tem muito do mangá, mas tambémde nossa arte final, dos traços originais. Esperavam o sucesso também nas outras faixas etárias?Era esperado. A criançada se interessa porque quer crescer e o público adulto tem a curiosidade de saber o que aconteceu com seus personagens da infância. O público jovem, sempre desconfiado, quer ler para saber se eles estão mesmo falando sua lingua.Mas o objetivo declarado era pegar a garotada entre os 12 e 16 anos?E estamos conseguindo chegar até eles. Só que como bons e tradicionais jovens - eles não gostam da palavra tradicional, mas sinto muito, jovens são como são desde que o mundo é mundo - eles criticam tudo. "Ah, não, isso não é o mangá japonês; ah, não, o Cascão não devia ter tomado banho; ah não, não devia ser preto-e-branco." Criticam e compram.Soube que vocês receberam vários e-mails. Há críticas recorrentes?Sim, os jovens sugerem que as histórias sejam mais corajosas, ousadas, que brinque mais com os tabus. Mas não vou fazer do jeito que eles pedem.Por quê?A Mônica é um gibi da família. As revistinhas circulam na mão da criançada. Claro, os tempos mudaram. As crianças que têm 7 ou 8 anos hoje abrem os olhos para o mundo, como ele é, muito cedo. Seja pelo noticiário da TV, pelas conversas em família ou na escola. Isso torna qualquer tema permitido. Tudo é possível de abordar, contextualizar e discutir. Esses assuntos cobrados passarão pela Turma da Mônica Jovem, mas de uma maneira suavizada, não no sentido de afastamento da realidade, mas no de tratamento adequado.Na nova série, Mônica e Cebolinha se gostam, mas, a cada vez que vão se beijar, alguma coisa os impede. Isso sinaliza um tipo de tratamento?Exato. Outro dia fizemos reunião com os roteiristas e minha neta de 15 anos e seus colegas. Num dado momento, a coordenadora perguntou: quem é o durão da casa, o pai ou a mãe? E minha neta respondeu: é o avô. Sou mesmo. Sou aquele que diz: "Não está na hora, você não pode fazer isso ainda. Não faça assim; faça assado." É uma atitude que algumas famílias vêm esquecendo por aí. Tanto na vida real quanto na revista em quadrinhos, eu sempre alerto sobre o não amadurecimento da garotada. Vou abordar temas como sexo e drogas, mas vamos conversar no gibi como se conversa no sofá da sala. Todos os assuntos hoje podem ser debatidos em família, mas se tiver criança por perto você vai escolher palavras. Isso eu tenho de fazer e as pessoas esperam que eu faça. Quais temas já tem em vista?Já relacionamos vários, para serem estudados pelos roteiristas, com situações como busca de emprego, intercâmbio cultural, oportunidades, temas nunca explorados na série infantil. Aos 7 anos, a garotada está brincando. Aos 15 querem experimentar tudo, são um monte de emoções e hormônios pulando para todo lado. O que a natureza faz com os jovens é uma violência, mas serve para jogá-los para fora do ninho e fazê-los voar. Algumas voam bem, outros se esborracham no chão. A nossa revista pretende ser de entretenimento, com pitadas de informação e orientação.Senti falta dessa ?orientação? sobre valores sempre presente nas histórias infantis. A série jovem não ficou um pouco fantasiosa demais? Foi mesmo uma escapada. Não era para ser tanto assim. Repare que no primeiro número há uma parte de cotidiano, daí a coisa voou para outros lados e agora temos de terminar a aventura, o que ocorre no número quatro. No quinto, já entrará um pouco do dia-a-dia deles lá no bairro do Limoeiro. A partir do retorno que tivemos, estou pedindo aos roteiristas que no primeiro plano estejam as emoções,. Essa é a linha que queremos dar para as histórias, valorizar o aspecto humano, conflitos, medos - emoções no bojo de um tema. O tema temos que escolher muito bem. É um desafio. Nenhum estúdio está se arriscando num trabalho assim.É mesmo a primeria vez que personagens crescem?Sim, isso não existe com personagens vitoriosos vendendo milhões de revistas, não precisando provar nada. Eu gosto de desafios. Para nossa sorte, existe hoje uma possibilidade de comunicação que é inédita no mundo dos quadrinhos: podemos falar em tempo real com nossos leitores e ele podem interferir no rumo das histórias. Claro, não vamos sair mudando de qualquer maneira. Mas eles cobraram o lado humano e sentimental em primeiro lugar e isso vamos fazer. Nossa relação é mesmo interativa. Até eu entro no orkut, converso de vez em quando com os leitores. Podemos ouvir e acatar as boas sugestões.Alguém perguntou como o Bidu podia ainda estar vivo, não foi?Pois é. Até criamos uma situação em que o Franjinha inventou uns comprimodos para ele. Mas tenho sugerido aos leitores que se lembrem que hoje, com ração adequada e vitamina, os animais domésticos vivem mais. Eu não vou matar nenhum bichinho.Surpeendeu o sucesso na faixa dos 7 anos?Que eles iam se interessar eu não tinha dúvida. O que surpreende é o entendimento. Isso mostra que os mangás, por meio dos desenhos animados, estão atraindo a garotada para histórias mais sofisticadas, o que é muito bom. A leitura dos gibis está mais rápida e eles pulam mais cedo para o livro, que fatalmente vem depois. Comigo aconteceu isso, com muita gente. Chegou um dia em que o gibi não me bastava mais.Ainda há preconceito de alguns pais? Ainda há a idéia de que gibi é leitura menor?Existe, mas está provado que quem lê gibi vai melhor na escola. Lógico, quem lê mais sempre vai melhor em qualquer coisa. Acabei de reler um livro que tinha lido fazia 50 anos: O Presidente Negro, de Monteiro Lobato, que ganhei por conta a eleição de Obama. Li em dois dias como fazia antigamente. Quando li pela primeira vez esse romance, eu estava saindo dos quadrinhos, lembro que fiquei compulsivo, lia um livro por dia.Você estava na China e passou por Portugal. Com tantas viagens para divulgar as revistinhas, ainda sobra tempo para criar?Não, mas eu leio todos os roteiros que saem. Todos passam pela minha mão ou no estúdio, ou via internet, onde quer que eu esteja. Avalio, indico caminhos, digo o que tem ou não de arrumar, aí passo para o estúdio para a diretora, que é minha mulher , ver os desenhos. De vez em quando, aqui ou ali, eu desenho alguma coisa, crio uma história.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.