Futurologia

Vim passar as férias aqui, na Califórnia, na cidadezinha de Del Mar, onde fui criado. Quis visitar meus pais e irmãos. Andava com saudades. Como já tive a oportunidade de explicar, meu pai é uma figura. Tem 74 anos e é fanático por tecnologias novas. Esse gosto não seria tão divertido, caso ele tivesse uma formação na área. Mas não tem. É um humanista. Fez psicologia na faculdade. E embora assista a todos os programas sobre o assunto, sofre de algumas das deficiências tecnológicas características da sua - e da minha - geração (temos, hoje, praticamente a mesma idade...)Mas seu entusiasmo é inabalável, se é que essa palavra existe. Sua maior paixão no momento é o Kindle, o leitor de livros eletrônicos da Amazon. Lê todo dia o New York Times no aparelho. Assina revistas e compra livros digitais através do Kindle. Fala desse assunto sempre que possível, com ânimo. Minha mãe diz que precisou reprimi-lo em diversas ocasiões. É que basta qualquer pessoa, amiga ou não, mencionar o título de um livro para meu pai retirar o Kindle e adquiri-lo eletronicamente. Cada título custa dez dólares. Meu pai não conseguiria lê-los todos. Mas, para ele vale, a oportunidade de mostrar como funciona o aparelho.É como andar com uma livraria virtual, e das boas. É pequeno. Do tamanho dos menores computadores laptops. Devo mencionar que, até onde sei, o Kindle não funciona no Brasil, ou funciona mal. É o que li, ao menos. E custa por volta de 300 dólares aqui, nos Estados Unidos.Não sei quanto tempo vai levar, mas não há dúvida de que vai transformar os jornais, as revistas e os livros. Não reproduz cor e ainda traz dificuldades para o usuário menos acostumado, como eu. Para mim, não existe nada como o papel. Mas a Sony e o Google prometem novas versões de leitores eletrônicos para breve. E o Google deve oferecer acesso à sua biblioteca virtual de quase todos os livros do mundo. De modo que esta tecnologia vai ser de grande impacto. Vai mudar muita coisa, não tenha dúvida.O problema para editores é que a Amazon insiste em ficar com a parte do leão de cada venda, algo em torno de 70%, segundo li. Mas isso pode mudar, imagino, sobretudo com a entrada de concorrentes de peso.O outro assunto do meu pai, neste momento, é memória de computador. Ele está encantado com a ideia de que um único drive externo de um terabyte traz mais memória do que existia em todos os Estados Unidos há poucos anos. Faz questão que todos os seus filhos tenham um drive desses, cuja função é manter cópias de segurança de arquivos digitais. Ofereceu-se para escolher um para minha mulher Luli. Marcamos um encontro numa loja de eletrônicos na cidade de San Diego, aqui perto. Loja é pouco. Nunca vi nada tão grande. Vende de videogames a computadores e televisores, pilhas, telefones de todos os tipos, o escambau. (Isso é que é mercado, diga-se).Levei meu filho caçula, Samuel, de 6 anos, para escolher um brinquedo. Encontramos com meu pai na loja e passamos tanto tempo lá que foi preciso comer. Ele sugeriu a lanchonete da própria loja. Achei a ideia divertida. Samuel comeu um prato mexicano e uma bolacha de chocolate. Quando terminava a sobremesa, olhou para mim e perguntou: "Papai, por que é que tem um restaurante dentro de uma loja de eletrônicos?"Fiquei sem saber responder. A comida, diga-se, não foi grande coisa.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.