''Frutijas ausentes''

Cenira não ficava gripada, apenas. Ficava escandalosamente gripada. Suas gripes tinham esguichos e erupções. Espirros em série, tosse de sacudir a cristaleira. Parecia que ia morrer. E ela confirmava:- Eu vou borrer. Eu vou borrer!E, depois de outra rajada de espirros, que borrifava o que tivesse em volta:- E vou levar gente cobigo! "Anfitrião", não sei se você sabe, vem de Amphitryon, da mitologia grega. Amphitryon casou-se com Alcmena, mas antes que o casamento fosse consumado, Zeus, que podia tudo, disfarçou-se de Amphitryon e papou a Alcmena primeiro. Dessa união nasceu Heracles, que o bom Amphitryon criou como um filho, mesmo desconfiando dos atributos semidivinos que o garoto demonstrava desde o berço. Amphitryon ficaria na história como um corno exemplar se o mito não tivesse sido adaptado para o teatro por Molière, no século 18. Um dia o Amphitryon de Molière chega em casa e encontra outro deus, Júpiter, também disfarçado de Amphitryon, na cama com Alcmena. Grande bafafá, é ou não é, e reúnem-se os nobres para decidir qual dos dois é o verdadeiro marido de Alcmena. Júpiter convida todos os presentes para jantar, enquanto não chegam a uma conclusão. Um empregado de Amphitryon, Sósia (que na verdade é outro deus, Mercúrio, disfarçado), declara que isso acaba com qualquer dúvida, pois o verdadeiro Amphitryon é o Amphitryon que dá jantares. E desde então "anfitrião" ficou sendo o nome de quem recebe em sua casa. Mas cuidado. Ao ouvir alguém ser chamado de "conhecido anfitrião", procure saber se é no sentido pré ou pós-Molière. Falava-se maravilhas daquele novo chef espanhol. Que sua comida chegara a fronteiras nunca antes imaginadas de requinte e originalidade. Tanto que um grupo de ricos se reuniu para trazer o chef ao Brasil e o recebeu com apenas um pedido:- Assombre-nos.O chef fez algumas exigências. Pagamento adiantado. Dólares? Jamás. Euros.Também precisava saber para quem iria cozinhar. Eram pessoas sofisticadas?Díssimas, responderam. Conheciam sua reputação? Sabiam da sua cozinha diáfana? Sim, sim, responderam, e queremos prová-la. Estamos pagando uma fortuna para poder dizer que a provamos a quem nunca a provará. Bien, disse o chef.Trabalharia sozinho. Suas receitas eram secretas. Ninguém poderia vê-lo trabalhando. No seu restaurante, na Espanha, seus ajudantes assinavam um termo de confidência que, se rompido, significava a morte por garrote vil.E uma última exigência: a música de fundo na cozinha.- Mozart.Segundo o chef, Mozart estabilizava os molhos.No local escolhido para o jantar, não mais do que 12 pessoas. Grande expectativa. O próprio chef traz os pratos do que chama de Menu Evanescente, que começa com uma roda de pequenas colheres vazias num prato vazio, que ele descreve como "Evaporaciones mediterraneas" e prossegue com uma seqüência de pratos vazios, todos elaboradamente descritos pelo chef ("sueño de conejo con evocación de almejas", etc.), até o último, que vem com uma espuminha na borda que ele avisa para não comerem porque é enfeite. Depois de se entreolharem, na chegada do primeiro prato vazio, sem saber o que fazer, as pessoas pegam os talheres e começam a "comer" com mímica, algumas fazendo "mmm" a cada garfada. No final, depois da sobremesa - desta vez uma tigela vazia, "crema hipotética de frutijas ausentes" segundo ele - o chef é aplaudido.- Maravilha! Maravilha!E todos saem do jantar com fome mas certos de que terão o que contar para serem invejados.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.