Fraternidade e imigração: eis a questão

Rigor das políticas contra imigrantes na Europa vira denúncia no cinema francês

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2009 | 00h00

Todos os dias, centenas de jovens originários de zonas de conflitos, como o Iraque e o Afeganistão, tentam a sorte cruzando - muitas vezes a pé - toda a extensão da Europa. Em um dos extremos do continente, no porto de Calais, esses imigrantes ilegais transformam o norte da França em um campo informal de refugiados. Lá, desafiam obstáculos às vezes intransponíveis: a miséria, a perseguição policial, o mar. E, se ainda não o fizeram, descobrem que não são bem-vindos.Com o lançamento de Welcome, drama de Philippe Lioret, em Paris, o cinema francês demonstra ter mergulhado em um ciclo de denúncia sobre as políticas contra a imigração na Europa. O longa, líder das bilheterias do país, aborda a história de Simon (Vicent Lidon), um ex-campeão convertido em professor de natação, que, em busca da atenção de sua ex-mulher, passa a instruir Bilal (Firat Ayverdi), um jovem iraquiano que almeja atravessar a nado o Canal da Mancha para ingressar de forma ilegal na Inglaterra.A trama se passa na cidade portuária de Calais, município de 75 mil habitantes situada no ponto da Europa Continental mais próximo ao Reino Unido. Determinado, mas incapaz de superar seus traumas de guerra, que afloram em uma primeira tentativa frustrada de travessia do canal, Bilal conclui que sua melhor chance é enfrentar as águas revoltas do mar que separa o continente da ilha. Simon sabe que desafiar as correntes poderosas e a densidade do tráfego marítimo da Mancha não são tarefas para iniciantes, mas decide orientá-lo. Na aproximação de dois homens cujas vidas têm em comum as paixões frustradas, surge uma relação de projeção - pai-filho, mestre-aprendiz - e de admiração recíproca que os une.À história fictícia, interpretada com magnetismo por um veterano, Lidon, e por um estreante, Ayverdi, sobrepõe-se o peso da realidade denunciada por Lioret: a repressão à imigração em Pas-de-Calais. Neste departamento francês se situa uma versão europeia do Deserto de Sonora, o ponto no qual os latino-americanos buscam, custe o que custar - a vida, inclusive -, ingressar nos Estados Unidos. Em Calais, a repressão é feita tanto com a truculência dos tratores, quanto com a alta tecnologia, usada para flagrar nos depósitos de carga de caminhões fluxos anormais de CO2 emitidos pelos candidatos a ilegais.Para amparar uma e outra técnica de investigação, o Estado usa uma lei controversa, que ameaça com cinco anos de prisão os que auxiliam "pessoas em situação irregular". Em um país onde Vichy, o regime colaboracionista francês, ajudou a capturar e deportar judeus para campos de extermínio nazistas na 2ª Guerra Mundial, toda lei que persiga quem se levanta contra a opressão soa a uma violência contra o lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Daí a polêmica do filme. São a legislação, os Estados e as políticas de imigração europeias que Lioret, em última análise, interpela. Seu sucesso em provocar a reflexão ficou claro quando o ministro da Imigração, Eric Besson, um ex-socialista conhecido por ter traído seu partido em 2007, veio a público atacar o diretor. "Sugerir que a polícia francesa é a polícia de Vichy e que os afegãos são caçados é insuportável", afirmou, amplificando a controvérsia.Welcome, o sexto longa metragem de Philippe Lioret, de 53 anos, um diretor discreto até o sucesso de Eu Estou Bem, não se Preocupem (Je Vais Bien, ne t''en Fais pas), em 2006, não é único a jogar luz sobre a onda de repressão a estrangeiros, que remete às entranhas da França e da Europa. Imigração é hoje um dos assuntos que pulsa mais forte no continente, dentro e fora das telas. De forma direta ou indireta, diferentes dramas expuseram os problemas de integração dos estrangeiros à sociedade, como Eden à l?Ouest (2009), de Costa Gavras, Entre os Muros da Escola (2008), de Laurent Cantet, e Paris (2008), de Cédric Klapisch. Ao Estado, Lioret sintetizou a origem desta obsessão contemporânea do cinema francês: "Se nós, diretores, somos numerosos a refletir sobre o tema, é porque tudo ficou muito grave."

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