Fernando Maquieira
Fernando Maquieira

França dedica retrospectiva a Walker Evans e sua arte viva e perene

Exposição mostra o sofrimento da América profunda em imagens

Sheila Leirner, ESPECIAL PARA O ESTADO

24 Maio 2017 | 07h00

PARIS - “Uma boa exposição é uma lição para o olhar.” É com esta frase de Walker Evans (1903-1975), figura maior da fotografia do século 20, que o espectador termina a visita da primeira grande retrospectiva na França dedicada a ele. É pouco. A mostra que se inaugurou esta semana no Centro Pompidou (até 14 de agosto) constitui uma formidável lição, não apenas “para o olhar”, mas para tudo que pensamos saber sobre a fotografia em relação à arte e à história.

Ao reunir mais de 400 trabalhos e documentos - as melhores tiragens e coleções reunidas por Walker Evans desde o final dos anos 1920 até as polaroides dos anos 1970 - a exposição revela a face do sofrimento da América profunda. Mas Evans não é adepto da estética “miserabilista”. No lugar da denúncia rasa, o seu relato é lírico, pungente a ponto de ter levado Cartier-Bresson a declarar: “Sem o desafio que representava a sua obra, eu nunca teria sido fotógrafo...”.

Dividida em 4 partes, com 23 segmentos temáticos, a retrospectiva reproduz de maneira exaustiva, passo a passo, um percurso sem par. Seus temas são tão diversos, a obsessão e fascinação do fotógrafo tão intensas, que - mesmo para quem possui alguma familiaridade com os rostos e paisagens de Evans - são necessárias, no mínimo, três horas para compreender o cerne da sua obra: a procura apaixonada das características fundamentais da cultura vernacular dos Estados Unidos, ou seja, tudo que é próprio unicamente daquele país e de mais nenhum outro.

Rebelde na adolescência, Walker Evans veio a Paris com 23 anos, morou numa pensão, leu Baudelaire, Flaubert, Hemingway, Miller, Fitzgerald. A literatura influenciou o seu olhar. Ao voltar a Nova York, abordou o primeiro tema: a cidade. Fotografou tudo sempre de frente. Reproduziu procedimentos que antes eram restritos apenas a fotógrafos profissionais de cartões-postais, pessoas, suvenires, documentos de identidade, etc. Com essa “arte sem arte”, foi precursor da arte conceitual. Influenciou Andy Warhol, Ed Rusha, Dan Graham, Sherrie Levine, Bernd e Hilla Becher, entre outros.

“Nós somos o que vemos”, afirmava, enquanto se ligava a Robert Frank e defendia o estilo documental opondo-se ao “esteticismo” do americano Stieglitz, primeiro fotógrafo (e marchand) a dar à fotografia o status de arte. Entre 1935-37, pleno período da Depressão americana, quando estava no sul do Centro-Oeste, enviado pela FSA (Farm Security Administration), os camponeses de suas fotos - como ele dizia - “falam com os olhos”. Walker Evans foi um homem discreto e, no entanto, um desarrazoado de imagens com as quais compôs um verdadeiro florilégio, o retrato de toda uma época dramática tão bem descrita na literatura americana, como por John Steinbeck.

Todos já experimentamos a sensação de que a morte ronda as fotos de pessoas ou lugares que já desapareceram. Surpreendentemente, não é o que acontece com as imagens desse fotógrafo. De modo quase miraculoso, pode-se dizer, todas elas, sem exceção, foram fixadas de tal modo que parecem continuar vivas para a eternidade. Rostos de passantes anônimos, pessoas no metrô, personagens rurais, botecos à beira da estrada, fachadas de lojas, estradas, ferrovias, vitrinas, vistas de ruas principais, ambientes agrícolas, instantâneos de Cuba - tudo é vivente e perene. E a única explicação que encontro está talvez na ausência total de pathos, ou seja, de empatia sentimentalista e emoção.

Walker Evans recusava, por exemplo, toda e qualquer referência religiosa. Alguns de seus clichês dão até mesmo a impressão de distanciamento e falta de alma. Como se tivessem sido feitos apenas por sua máquina. O que faz pensar em Flaubert, justamente, pois Evans adota o estilo naturalista, neutro, que o pai de Bouvard e Pécuchet descrevia assim: “O artista deve ser em sua obra como Deus na criação(...), que o sintamos em toda parte, e não o vejamos”. A rejeição do emocional, todavia, não significa que esse mestre não fosse humano. Ao contrário, a sua obra revela um caráter sobretudo indulgente, benevolente e sensível. Transborda de humanismo e compreensão profunda da vida, do homem e seu ambiente.

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