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Fotógrafo Klavdij Sluban ensina seu ofício a jovens da Fundação Casa

Francês também expõe fotos tiradas nos centros de detenção

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

05 de agosto de 2015 | 05h00

Há 20 anos o premiado fotógrafo francês Klavdij Sluban, de origem eslovena, entrou com sua Leica na prisão de Fleury-Méogis, a maior do continente europeu para jovens transgressores, disposto a ensinar fotografia aos detentos. A experiência seria reproduzida em outros países. Sluban ministrou workshops em vários centros de detenção fora da França, entre eles alguns na ex-União Soviética. Esta semana, Sluban, pela primeira vez no Brasil, repete o workshop com jovens da Fundação Casa, em São Paulo, e faz nesta quinta, 6, uma palestra na Biblioteca Mário de Andrade, dentro do seminário Democracia na História. Também nesta quinta-feira, Sluban abre na biblioteca a exposição Entre Parênteses: Adolescentes na Prisão, com fotos feitas entre 1995 e 2005 nos centros de detenção por ele visitados.

O trabalho do fotógrafo, de 42 anos, é um pouco como o cinema do diretor húngaro Béla Tarr - além das semelhanças temáticas, ambos só operam em preto e branco. Suas imagens parecem emergir das profundezas - os críticos dizem que são fotos feitas de sombras, mas ele prefere ver na penumbra um mundo de claridade. Sluban parte da escuridão total para ter acesso à luz. Foi o que aprendeu com Georges Fèvre, seu primeiro mestre, e com Cartier-Bresson, que prestigiou sua primeira mostra com os detentos do complexo penitenciário de Fleury-Méogis, em 1995.

O que ele faz nas prisões é levar luz aos jovens que não conseguem ver nada além da escuridão dentro dos muros das penitenciárias. Na segunda, 3, de manhã, ficou surpreso como os meninos da Fundação Casa perseguiam essa luz ao apontar suas câmeras para o céu, em busca de um avião de passagem ou algum elemento arquitetônico fora dali. “São imagens de uma modernidade incrível”, analisa, apontando uma foto incomum para um garoto não familiarizado com a linguagem visual: o rosto de outro jovem detento parcialmente encoberto por uma parede, como um ser sem direito à identidade.

“Nesses workshops não falamos de fotografia, mas do lugar onde estão vivendo esses jovens”, diz, observando que é a consciência do espaço oclusivo e das fraturas do confinamento que levam os detentos a desenvolver a percepção de um horizonte. “A prisão é sempre uma extensão do país onde eles vivem”, conta, apontando como exemplo (negativo) o centro de detenção de Fleury-Méogis, que reproduz, segundo ele, o racismo e a xenofobia reinantes na França. A administração penitenciária francesa, evoque-se, notificou o fotógrafo de que ele deveria suspender seus trabalhos por lá. “Olhe só”, diz ele, apontando os muros da lúgubre prisão: “Parece Auschwitz”.

Construir prisões virou, conclui ele, um grande negócio para as construtoras privadas da França, onde um adolescente de 13 anos já responde por seus crimes. Ao saber que políticos brasileiros querem que a maioridade penal comece aos 16, ele afirma que “sociedades irresponsáveis acabam, invariavelmente, jogando a responsabilidade sobre os menores”. Sluban não foi um jovem delinquente, mas sabe o que é se sentir culturalmente deslocado. “O jovem detento está fora da média, sente que é diferente, e também por isso jamais pergunto o motivo que o conduziu à prisão.” Sluban diz que não é ingênuo, mas, nesses últimos 20 anos, não topou com nenhum “garoto mau” nas prisões. O alto nível de reincidência entre os delinquentes - 80% voltam à prisão - tem tudo a ver com o nível de irresponsabilidade de cada sociedade.

Além do trabalho nas prisões, Klavdij Sluban, que tem formação literária, é conhecido por séries em que a paisagem é melancólica, abissal, carregada pela névoa, como a exploração dos vastos espaços registrados a bordo do expresso transiberiano, jornada que virou livro prefaciado pelo escritor italiano Erri de Luca.

ENTRE PATRENTHÈSES, ADOLESCENTS EN PRISON

Biblioteca Mário de Andrade. R. da Consolação, 94. 2ª a dom., 10h/ 19h. Abre 4.ª (5). Até 3/10.

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