Claudio Edinger
Claudio Edinger

Fotógrafo Claudio Edinger faz registros do isolamento social usando a técnica de foco seletivo

Temas como a solidão e o sentimento de impotência diante da pandemia já inspiraram quase 200 retratos, que serão selecionados para a publicação de um livro

Entrevista com

Claudio Edinger

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 05h00

Carioca de nascença, mas residente na cidade São Paulo desde a infância, o premiado fotógrafo Claudio Edinger, 68 anos, tem feito uma série de imagens usando a técnica de foco seletivo para registrar a vida das pessoas durante o isolamento social pela quarentena. O material será usado para um próximo livro. Sobre esse e outros assuntos, ele respondeu, por e-mail, as seguintes perguntas. 

Como teve início esse trabalho durante a quarentena? 

Comecei a rever o trabalho do Edward Hopper e seus quadros refletindo isolamento, solidão, o sentimento de impotência que a pandemia de alguma forma nos traz. Aí, sem planejamento algum, fiz um retrato com o drone no dia 8 de abril da Alice, filha da minha mulher, Betina Samaia, no meio do Rio Jacaré Pepira, em Brotas. Depois, fiz outro retrato do alto, e assim foi. Um retrato foi puxando o outro. Quando percebi, meu estilo, fotografando de cima, com foco seletivo, combinava muito bem com o momento que a gente está vivendo.

Vai transformar em livro?

Sim, já tenho quase 200 retratos dos quais pretendo usar cerca de 140 para um livro. Como vamos nos lembrar desta época? A fotografia é o que resta do tempo avassalador. Para resolver nossas questões, precisamos refletir, senão não há evolução. Visualizo o mundo em franca evolução e a fotografia é absolutamente fundamental para isso.

Fazer as fotos foi uma maneira de ficar ativo nesse período? 

Sim. A fotografia para mim é pesquisa. Estou sempre em busca de novas fronteiras. É fantástico como não há limites. Adoro isso na arte, principalmente na fotografia. Desde menino, adoro criar, descobrir novos caminhos, novas aventuras. Quando eu tinha 10 anos de idade, o diretor do colégio Rio Branco chamou meu pai e explicou a ele como eu era impossível. Meu pai sugeriu um castigo bem alemão – manda ele escrever no quadro negro cem vezes ‘eu não vou mais me comportar mal’ ou algo assim. Era dia de Copa do Mundo, Brasil contra a Checoslováquia. Eu havia levado um radinho disfarçado de sanduíche. Meu pai me dedou e eu fiquei sem. Estava todo mundo no recreio ouvindo o jogo e eu na lousa. Escrevi a primeira sentença normal e a partir daí escrevi cada uma das sentenças de um jeito, de um tamanho, com uma letra diferente. Descobri, só anos mais tarde, que o artista se revelou aí.

Como fez para fotografar as pessoas que estavam distantes? 

Usei um drone para todos os retratos que fiz, no começo sempre à distância. Ligava para as pessoas e, colocando a ligação no viva voz, dizia como eu queria que elas ficassem. Todo retrato tem que ser dirigido pelo fotógrafo. Com o tempo e com os retratos ficando mais elaborados, acabei entrando na casa das pessoas. Os retratos foram acontecendo espontaneamente, cada lugar ditava sua própria estética, nunca sabia de antemão o que iria fazer e o barato todo é esse.

Consegue destacar algumas imagens dessa série?

O retrato aéreo é uma coisa nova, possível graças à evolução tecnológica dos drones. Não é simples mas com o tempo a gente vai pegando o jeito. Tenho muitas histórias. A capa do livro vai ser, pelo menos por enquanto, a foto do Eduardo Longo na sua casa-bola, desenhada por ele. O homem preso na bola é a metáfora perfeita para todos nós, presos nesta bola gigante chamada Terra. Tem ainda o Guto Lacaz, em casa equilibrando um guarda chuva no dedo. Como tudo o que ele faz, é uma imagem carregada de significados ampliados pela situação extrema causada pela pandemia. 

O que é o foco seletivo e como decidiu usar essa técnica? 

Foco seletivo é a maneira como enxergamos o mundo, evidenciando nossa natureza ambígua. Se vemos tudo sempre focado e desfocado ao mesmo tempo, em nossa dialética existência, não é simples encontrar a síntese: quem somos e por que estamos aqui. Certa prática da fotografia mostra-nos tudo em foco. Isso só existe na fotografia, não reflete a vida real. Com o foco seletivo, busco mostrar nossa intimidade, como somos de fato. Procuro criar uma imagem com a qual nos identificamos, possibilitando-nos refletir sobre a nossa existência e o que é este caos maravilhoso onde vivemos.

 

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