Maurício Lima
Maurício Lima

Fotografia documental faz sucesso na Sp-Arte/Foto

Feira, que vai até domingo, 27, no Shopping JK Iguatemi, traz imagens de fotógrafos premiados, como Maurício Lima, primeiro brasileiro a ganhar o Pulitzer

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2017 | 06h00

A fotografia documental marca presença na 11.ª edição da feira SP-Arte/Foto, da qual participam pela primeira vez três galerias, uma delas, a Doc, dedicada exclusivamente a esse segmento, representando, entre outros, o fotógrafo Maurício Lima, primeiro brasileiro a ganhar o prêmio Pulitzer por sua série sobre refugiados no continente europeu. Fundada há seis anos pela fotógrafa Mônica Maia e o jornalista Fernando Costa Neto, a galeria está exibindo na feira o trabalho de outros fotojornalistas e parte do acervo do extinto jornal Última Hora, além de raras imagens do fotógrafo Otto Stupakoff e o portfólio original que levou para os EUA em 1964.

Por coincidência, esta também é a primeira vez que o colecionador alemão Artur Walther participa da SP-Arte Foto. O museu que ele criou em Ulm, na Alemanha, é hoje uma referência mundial em fotografia étnica e documental, apesar do pouco tempo de existência. “Coleciono fotografias desde os anos 1990, mas foi só há sete anos que eu decidi reformar uma casa em Ulm para abrigar esse acervo”, conta Walther, que foi para os EUA em 1975 e fez fortuna em Wall Street. Ao se aposentar, em 1994, decidiu se dedicar exclusivamente à coleção, que tem séries históricas, entre elas um trabalho pioneiro da fotografia documental, do alemão August Sander (1876-1964).

“Sempre me impressionou a série Anlitz der Zeit (O Rosto da Época), de Sander, e fui atrás das fotos originais de seu fotolivro seminal, publicado em 1929, começando a coleção com um clássico.” Nele, Sander selecionou vários tipos sociais e profissionais para montar um panorama da República de Weimar. Não é uma série marcada pela neutralidade. Há nela um olhar crítico que define a sociedade alemã de sua época, como sugere o título. E mais: trata-se de um fotolivro que até hoje é referência para fotojornalistas.

“Comprei a série para exibir as fotos ao lado de outros profissionais que, de alguma maneira, dialogaram com ele, como o africano Seydou Keïta, que mapeou a transformação social do Mali entre 1940 e 1960, e o norte-americano Richard Avedon, que, em 1976, saiu pelos EUA registrando os poderosos do país”, diz Walther, que participou, na quinta-feira, de uma conversa com a idealizadora e diretora da SP-Arte/Foto, Fernanda Feitosa.

Walther tem 500 séries integrais no acervo do museu de Ulm, um prédio bauhasiano em meio à paisagem conservadora de Ulm com um generoso espaço subterrâneo repleto de fotos de profissionais de países periféricos, evitando um olhar eurocêntrico. “Estou tentando fazer uma aproximação conceitual entre Sander e outros fotógrafos que lidam com questões como nacionalidade, gênero e sexualidade”, explica Walther, citando como exemplos o sul-africano Guy Tillim, fotojornalista da minoria branca dedicado aos conflitos raciais, e a ativista, também sul-africana, Zanele Muholi, que registra a jornada da comunidade gay negra em seu país.

Walther ficou impressionado com os pioneiros da fotografia experimental no Brasil (Geraldo de Barros, Thomas Farkas, Gaspar Gasparian). Talvez incorpore alguns à coleção alemã, certamente seguindo os passos do curador inglês da Tate Gallery, Simon Baker. “A Tate começou tardiamente a sua coleção de fotografia, em 2009, mas estamos tentando expandir o acervo”, diz o curador, que falou sobre suas escolhas dentro da série Talks, da SP-Arte Foto. “É uma coleção globalizada, que tem japoneses, americanos, europeus, africanos e latinos”, diz ele ao Estado, revelando que, após a compra dos modernistas, providenciou a aquisição de contemporâneos brasileiros, entre eles Mauro Restiffe e Rosângela Rennó.

A Tate está empenhada na produção de fotolivros. “Eles são documentos de uma época e democratizam o acesso à fotografia”, justifica Baker, revelando que a instituição não tem um departamento exclusivo para a área, “pois acreditamos no diálogo entre as mídias, entre a foto e a performance, a foto e a pintura e as mudanças advindas das novas tecnologias”.

O editor da tradicional revista americana de fotografia Aperture, fundada em 1952, Michael Faminghetti, observa que a passagem do estúdio para as ruas deu impulso à fotografia documental e pavimentou o caminho conceitual que hoje consagra fotojornalistas como Maurício Lima, Gabriel Chaim e outros. “A fotografia documental migrou para um terreno mais ensaístico”, analisa Famighetti, cuja revista, com tiragem de 20 mil exemplares, segue essa linha, replicando a aparência de um fotolivro.

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