Forças

"Deus, me dê forças!"Era a frase que toda a vizinhança ouvia, mais de uma vez por dia, vinda do apartamento do quarto andar onde moravam a dona Ritinha e seu marido Manuel, chamado por todos de Manuelão. "Deus, me dê forças!"A vizinhança entendia a dona Ritinha. Ela era uma santa pessoa, educadíssima. Professora de piano. Louca pelo Debussy. Uma mulher pequena de aspecto frágil. E a convivência com o Manuelão certamente não ajudava sua saúde. A vizinhança só podia imaginar o que o Manuelão, que tinha o dobro do tamanho da mulher, aprontava para provocar aquelas súplicas repetidas."Deus, me dê forças!"Dona Ritinha precisava mesmo de forças para aguentar o Manuelão. O que ninguém entendia era por que aquele casamento se dera. Não poderiam haver duas pessoas mais diferentes do que a frágil e sensível dona Ritinha e seu gordo e lamentável marido. Nada combinava menos com Debussy do que o Manuelão. Mas o casamento continuava. Era, pensavam todos, para que o casamento continuasse que dona Ritinha pedia a Deus que lhe desse forças. Uma santa pessoa, diziam.Mas um dia aconteceu o seguinte: o Manuelão foi jogado do apartamento do quarto andar. Voou pela janela. Deus tinha atendido ao pedido da dona Ritinha! O FINALIdeia para uma história. Um homem está lendo um livro policial e descobre que a última página está faltando. Justamente a página onde tudo se resolve e revela-se quem é o assassino. O homem leva o livro de volta à livraria para trocá-lo por outro exemplar e é informado de que o livro esgotou. Não há mais exemplares disponíveis.? Aliás ? diz o vendedor ? o senhor é a terceira pessoa que vem reclamar da falta da última página. Aparentemente, toda a edição saiu com o mesmo erro. Já nos comunicamos com a editora.? E o que diz a editora?? Até agora, nada. Estamos esperando a resposta.O homem deixa seu nome e telefone na livraria para ser avisado quando chegar uma resposta da editora e pede para saber o nome e telefone dos outros leitores que reclamaram. Talvez possam se reunir para conversar sobre o fato, especular sobre o fim da trama e sobre quem é o criminoso, formar uma espécie de clube de leitores frustrados enquanto aguardam a resposta da editora. Mas o homem descobre que os outros dois leitores do livro sem fim acabam de morrer, quase ao mesmo tempo, nas mesmas circunstâncias. Ambos apunhalados.Quando chega a resposta da editora, é uma surpresa. A editora afirma que não falta página alguma. Que o livro acaba assim mesmo. O homem estranha. Mas como? Acaba no meio de uma frase? Sem que se saiba quem matou, e como, e por quê? Resolve escrever para a editora. Recebe, de volta, a sugestão de que talvez a intenção do autor fosse essa mesmo, deixar o final no ar para que o próprio leitor o deduzisse. O homem não se convence. Pede o endereço do autor. Recebe a informação de que o autor morreu logo depois de terminar o livro. Apunhalado. Mas ele não terminou, insiste o homem, em outra carta à editora. Que não responde.O homem resolve reler o livro. Pensando que talvez o final abrupto fosse mesmo intencional, que o autor quisesse mesmo que o leitor deduzisse sozinho quem matou, e como, e por quê. Afinal, a literatura moderna estava cheia de jogos e truques, aquele talvez fosse mais um exemplo. Na penúltima página, ou na última se aquilo fosse mesmo um truque, o homem tem uma ideia bastante firme sobre a identidade do assassino. É quando ouve um ruído às suas costas e, virando-se, vê se aproximar um vulto com um punhal.

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