Força do gesto minimalista de Wilfredo Prieto

Jovem artista cubano em destaque realiza na Galeria Baró Cruz a exposição Termo Médio, sua primeira individual no Brasil

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2008 | 00h00

Aos 30 anos, o cubano Wilfredo Prieto já tem em seu currículo participações em mostras de destaque no mundo da arte, como na 52ª Bienal de Veneza ou no Museu do Louvre em Paris, onde realizou, em 2006, a obra Apolítico, com 60 bandeiras de vários países hasteadas na parte externa da instituição, mas todas elas em preto, branco e cinza. Jovem artista, Prieto é dos criadores que escolheu o caminho de uma estética minimalista dentro de uma trajetória de produção tão eclética porque a ele não interessa ficar amarrado a uma criação esquemática e previsível. "Procuro o gesto mínimo que pode ativar o conteúdo", diz ele, que faz agora em São Paulo sua primeira exposição individual no Brasil, Termo Médio, na Galeria Baró Cruz.Ou, ainda dizendo, Prieto, nascido em Sancti Spiritus e que vive entre Havana e as cidades onde realiza trabalhos, escolheu a "simplicidade, o uso da arte como uma atividade dessacralizada", como já definiu o crítico Gerardo Mosquera em artigo para a revista ArtNexus. Em suas operações simples, o artista mescla a política e a poética de maneira a não fechar "todos os sentidos de ser". "Há níveis de conteúdo, o político, o social, o filosófico", diz Prieto, que utiliza as coisas do cotidiano de uma forma evidente e inteligente: "A realidade sugere as idéias, não me interessa deformá-la."Fazendo uma passagem rápida por seus trabalhos, ao mesmo tempo em que o artista tirou as cores das bandeiras dos países na obra Apolítico, já apresentou uma biblioteca de livros em branco - e as pessoas mecanicamente ficaram folheando os objetos até perceberem que ali não havia nada que pudessem encontrar - ou ainda concebeu, no trabalho One, uma montanha brilhante de diamantes falsos que continha apenas uma pedra real e preciosa em seu interiormeio. Mais ainda, certa vez Prieto pintou mangas verdes de uma mangueira com tinta vermelha para criar a ilusão de que estavam maduras, fazendo, como diz, uma menção à fome. Enfim, as coisas são mais do que sua aparência na produção de Prieto e em sua mostra na Galeria Baró Cruz não poderia ser diferente.Agora, quando o visitante entra na galeria paulistana, dá de encontro apenas com um espaço fragmentado em três áreas por cortinas de franjas de PVC transparentes. Nessa instalação intitulada Termo Médio e inédita, o espectador terá de contar com seus sentidos - com a sensação - para entender esse trabalho: cada um dos espaços, aparentemente vazios, tem temperaturas diferentes - um é bem frio, o intermediário é médio e o último é bem quente. "Estou falando de um termo que mostra que passar pelos extremos obriga a passar pelo médio também. Parece que é algo democrático, mas não é", diz o artista sobre essa "escultura mínima" de raiz tão política.Já no piso superior da galeria está a obra Mute (Mudo). Ela é simples também, feita apenas pela projeção de luzes coloridas refletidas no espaço por um globo de discoteca. Mas na "discoteca banal", "perdida de glamour" não há nenhuma música - o movimento é feito pelas luzes, ora frenéticas, ora mais lentas. "É um comentário sobre a impossibilidade", diz Prieto. Enfim, é uma experiência de vertigem que não leva à fantasia, mas, ao contrário do escapismo, a um estado cru de ausência. ServiçoWilfredo Prieto. Galeria Baró Cruz. Rua Clodomiro Amazonas, 526, Itaim Bibi, telefone 3167-0830. 2.ª a 6.ª, 11 h/19 h (sáb. até 16 h). Até 29/11

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