Força de Sansão e Dalila está no coral

Regência equilibrada de Jamil Maluf abre espaço aos cantores na montagem em que as projeções parecem dispensáveis

O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2008 | 00h00

Sobre a tela transparente, que recobre toda a boca do palco, é projetado o texto hebraico da Torá, contando a história do herói, com a sua tradução em português e citações de trechos do libreto em francês. Essas projeções são um dos elementos que tornam irregular a montagem do Sansão e Dalila, de Camille Saint-Saëns, assinada por André Heller-Lopes, que estreou sábado no Teatro Municipal.Para que as projeções sejam possíveis, a tela é mantida sobre o palco durante toda a primeira cena da ópera. É um efeito tedioso e cansativo, na medida em que, por tempo demasiado longo, ela dificulta a visão do que acontece em cena, num momento muito estático - devido à própria origem inicial da obra como um oratório -, e em que a iluminação, buscando decerto um efeito deliberado de claro-escuro - que funciona mal - é muito difusa. Essas projeções, se são às vezes um elemento enfatizador do drama - na cena da mó, no início do terceiro ato, por exemplo, elas são expressivas -, em outras parecem óbvias e dispensáveis. Sobrepor a imagem de um mar encapelado ao dueto da sedução, no segundo ato, para sugerir a tempestade das paixões, é no mínimo um recurso desgastado. Assim como é de gosto discutível o uso dos anjos que surgem como figurantes no último ato.Essas restrições, porém, não significam que da montagem estejam ausentes idéias criativas. Trabalhar com figurinos de épocas diferentes - a indumentária de Sansão, por exemplo -, frisa a intenção de André Heller de dar à história do herói bíblico um conteúdo atemporal e universal. Nesse sentido, a sua idéia mais interessante é a de apresentar Dalila, no primeiro ato, como uma cortesã francesa do século 19, com um vestido vermelho, cuja cauda se estende por todo o palco. No universo mental de Saint-Saëns, é dessa maneira que se concebe a imagem da sedutora, destruidora de homens, e essa idéia da direção é habilmente enfatizada pelo figurino de Marcelo Marques.Os cenários de Hélio Eichbauer, em tons de cinza, sem serem exatamente bonitos, são eficientes. E a coreografia de Luiz Fernando Bongiovanni é funcional, tanto na dança das acompanhantes de Dalila, no primeiro ato, quanto no grande balé do terceiro, obrigatório em toda a ópera francesa, ao qual o coro, no final, se integra com muita desenvoltura.Leonardo Neiva, como o sumo-sacerdote, é a melhor presença em cena, pelo seu rendimento vocal e cênico, tanto na ária do primeiro ato, quanto nos dois grandes duetos com Dalila. Também Lucas Debevec Mayer (Abimelech) e, especialmente, Pepes do Valle (o Velho Hebreu) tiveram desempenho apreciável; este último com muito bom domínio da tessitura grave de seu papel. Da mesma forma, foi muito correta a participação de todo o elenco de apoio.O timbre bonito da voz de Richard Berkeley-Steele foi neutralizado pelo tamanho pequeno de um instrumento que não corre com facilidade, e tende a ter vibrato muito forte nas notas sustentadas, além de tender a uma certa frieza e uniformidade interpretativa - com isso comprometendo a dimensão heróica que precisa ter a personagem central. Quanto a Cecilia Diaz, a sua voz é potente e de timbre interessante, mas extremamente desigual, com um registro médio que tende a ficar fosco e a perder volume - a voz de Neiva sobrepôs-se muito à dela, sobretudo no dueto do terceiro ato -, e com agudos volumosos, mas que irrompem bruscamente, de forma deselegante, como um grito. A irregularidade do desempenho de Díaz e Berkeley-Steele fez com que o trecho mais famoso e esperado da ópera, a ária "Mon coeur s?ouvre à ta voix", negasse fogo, passando batido, sem ser aplaudida.No conjunto, foi exemplar o desempenho do Coral Lírico, cuja participação é fundamental numa ópera como Sansão e Dalila, em que o coro tem papel de primeiro plano. A direção de atores de André Heller conseguiu movimentá-lo muito bem. Assim como a regência muito equilibrada de Jamil Maluf que, ao contrário do que se tem visto com freqüência no Teatro Municipal, soube balancear com precisão palco e orquestra, sempre abrindo aos cantores o espaço necessário para que eles fossem ouvidos sem dificuldade. E em que pese o inegável kitsch dessa página, foi muito boa a execução que a Sinfônica Municipal e o maestro Maluf ofereceram da Bacanal, o grande balé do terceiro ato.

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