Fomos de Broadway a vanguardas possíveis

Atividade teatral no ano tem muito a festejar: consolidou-se o circuito independente e o comercial provou que se basta

Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2007 | 00h00

Quase tudo foi bom para o teatro neste ano, como tem sido na última década, ou mais um pouco. Consolidou-se um circuito independente de grupos com reconhecíveis linhas ideológicas e estéticas. A mudança eliminou em boa parte a dicotomia teatro militante versus o de entretenimento com aquele ressaibo de hostilidade entre as partes. Os terrenos estão demarcados. A constatação leva em conta os resultados artísticos e financeiros. Há dados novos em jogo.O núcleo de pesquisa cênica do teatro paulista está em teatros pequenos, não necessariamente precários (alguns bem instalados,como o Folias d?Arte e o novo Ágora). O público jovem aderiu de forma visível a esta arte. O eixo Centro Cultural São Paulo-Praça Roosevelt-Centro Cultural Banco do Brasil-unidades do Sesc tem espetáculos a preço de cinema. Na outra margem está o empresariado de musicais com investimento estrangeiro e as celebridades da TV que realizam seu teatro bonito, a preços altos na "Broadway-Brigadeiro Luís Antônio" e nas salas gigantes da zona sul, aonde se chega com estudos de mapas e guias da cidade.Tudo isso remete à questão econômica. O teatro comercial se basta e tem capacidade de captação de recursos. O lado de cá, a "off Broadway", continua recebendo abaixo do que deveria. O exemplo mais duro é o do Teatro de Vertigem, obrigado a interromper a sua monumental BR-3, "invenção" cênica que ocupava as margens do Rio Tietê numa verdadeira integração de teatro e urbanismo (a platéia seguia, em barcos, a representação do elenco no paredão da calha do rio). A realidade se impunha direta e invasiva, do olhar ao olfato: o caos, a sujeira das águas, as favelas. Pois o Vertigem não conseguiu sensibilizar patrocinadores oficiais ou particulares, quem sabe por não ter o poder de pressão do Teatro Oficina que continua. Os Sertões foi um dos momentos altos de 2006/2007.Este teatro deveria buscar apoio em instituições de estudos econômicos (Fundação Getúlio Vargas, Faculdade de Economia da USP) para se avaliar a massa de dinheiro que gera. Como canalizar em termos capitalistas algo que se refere à cultura? A mera sobrevivência aleatória (que joga subitamente um grupo como o Tapa em crise) é uma questão que diz respeito aos governos para além da rotina das verbas. Secretarias aparentemente alheias ao assunto específico deveriam estar nesse processo. Existe uma saída melhor para a situação ou os teatros terão de anunciar, cada vez mais, os apoios até de cantinas e bares? Há algo de canhestro, pouco artístico nessa bandeja passada antes do espetáculo.Mas a cidade se agita ao terceiro sinal. O teatro "estrelado" repete contente o que fazia o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) dos anos 40 e 50. Tem seus aficionados, nostálgicos do passatempo leve. É um dado cultural, uma lógica de mercado. De outra parte, graças a incentivos daqui e dali e muita garra, o pessoal novo segue seu caminho mesmo que incorrendo, vez ou outra, em equívocos de "experiências" sem base teórica ou dramaturgia com fôlego literário.Há dificuldade ou desinteresse em retratar a classe média errática, consumista, assustada e com certo viés autoritário. Falta igualmente uma dramaturgia sobre a alta burguesia nativa com sua insensibilidade social medularmente predadora. Continua-se a ignorar de forma absurda e indesculpável o teatro latino-americano. Quando se pensa numa novidade, numa sacada audaz, lá vêm os alemães, ingleses e agora todo o norte da Europa. Teremos logo, logo um autor da Groenlândia ou Lapônia. Em compensação, houve generosidade para homenagear Alfredo Mesquita, o criador da Escola de Arte Dramática (EAD) em Um Grã-Fino na Contramão, meticulosa e elegante biografia escrita pela jornalista e dramaturga Marta Góes. E todos saudamos os 80 anos de Sábato Magaldi, o mais importante crítico, historiador e ensaísta de teatro do Brasil, em plena atividade. No meio editorial, destaque para a Editora Perspectiva, do prof. J. Guinsburg, pela reedição de Marta, A Árvore e o Relógio, reunindo a dramaturgia de Jorge Andrade, e o lançamento de A Crítica de Um Teatro Crítico, de Rosangela Patriota, estudo sobre a obra de Oduvaldo Vianna Filho.Esse é o panorama visto de dezembro. É indiscutível que foram os "novos veteranos dos anos 90" os que melhor ofereceram em beleza e novidade. A cada temporada surge um talento visível. Sem esquecer, naturalmente, os mestres inquebrantáveis como Antonio Abujamra, José Celso, José Renato, Emílio Di Biasi e o incansável Antunes Filho, que enriqueceu ???em 2006/2007 com sua versão de A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, e está chegando aí com Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues. Sem esquecer - jamais - o exemplo de talento, bravura e dignidade humana e artística de Paulo Autran, de quem nos despedimos. Logo, com tudo, por tudo e apesar de tudo, um ano a se brindar.O Que Você Viu de Bom nos Palcos de São Paulo em 2007?"Salmo 91, Andaime, Diálogos das Sombras, Púcaro Búlgaro, Gaivota,Uma Pilha de Pratos na Cozinha, Divinas Palavras, Pequenos Milagres, O Pior de SP e Orestéia." REINALDO PINHEIRO CINEASTA"O melhor espetáculo a que assisti foi Salmo 91, direção de Gabriel Villela, com interpretações primorosas de um afinadíssimo elenco."WALDEREZ DE BARROSATRIZ"Salmo 91 conseguiu que eu fizesse as pazes com o teatro brasileiro após anos de descrédito. E Les Éphémères foi uma nova revolução na estética de Mnouchkine."DEOLINDA VILHENAPESQUISADORA TEATRAL"Destaco Clarisse Abujamra em Nove Partes do Desejo. E Gota D?Água - Breviário, de Heron Coelho. E Salmo 91, dirigida por Gabriel Villela. Também adorei Clarices." CARLOS NAVASCANTOR"Salmo 91, A Javanesa, Púcaro Búlgaro, Assombrações do Recife Velho, em-Vai, Les Éphémères e Continente Negro."TUNA DWEK, ATRIZ"Salmo 91 foi, de longe, o melhor."MARIA ADELAIDE AMARALDRAMATURGA"Vi Salmo 91, que adorei, e a montagem de Pirandello: O Homem, a Besta e a Virtude."MIRIAM CHNAIDERMANCINEASTA"Salmo 91 foi uma coisa inesquecível. Bibi Ferreira, em Às Favas com os Escrúpulos. Renata Sorrah, sempre. Macbeth, na Crisantempo. E João Guimarães: Veredas, com o Grupo Rotunda. sob direção de Teresa Aguiar."RENATA PALLOTTINIDRAMATURGA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.