Folclore sem ranço, teatro sem fronteira

Vladimir Capella resgata com raro talento a literatura oral de Câmara Cascudo

, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

Sete anos se passaram até que o veterano encenador de espetáculos infanto-juvenis Vladimir Capella conseguisse levar ao palco seu O Colecionador de Crepúsculos, tributo à vida e obra de Luís da Câmara Cascudo (1898- 1986). Um dos maiores nomes que o Brasil já teve na preciosa arte de recolher histórias orais e transformá-las em pérolas de literatura para todas as idades, Cascudo, embora não gostasse do termo reducionista, sempre foi chamado de folclorista. O espetáculo está em cartaz no palco principal do Teatro Popular do Sesi, com casa lotada a cada sessão. Merecidamente. Esse resgate da sabedoria popular é de grande importância num país que despreza suas raízes cada vez com menos culpa e sem cerimônia. Capella, além de uma carreira de contos de fadas e mitos recriados com competência (Clarão nas Estrelas, Maria Borralheira, Píramo e Tisbe) e musicais lúdicos como Avoar e Panos e Lendas, já havia feito incursão similar a este tributo a Cascudo: foi com a vida e obra de Andersen , em O Homem das Galochas (1987). A fórmula de mesclar os contos com a vida do próprio autor se repete, mas desta vez há toda a brasilidade das histórias. Capella não se furta nem mesmo em incluir a Bandeira do Brasil em cena. A singeleza e o lirismo de seu espetáculo, aliados à força dramática que imprime a cada conto de Cascudo, permitem o símbolo nacional e não admitem brechas para preconceitos contra patriotismo. Cascudo foi mesmo um grande brasileiro, por que não escancarar isso?Capella faz questão de encher o espetáculo com personagens dos mais variados sotaques, e deixa claro o quanto o Brasil todo está contido na riqueza literária do homenageado. Cariocas, gaúchos, nordestinos: todos aparecem, mas com sutileza, bom gosto e, sobretudo, intenções dramatúrgicas, caso contrário o risco seria o de um desfile de trajes típicos. Não faltou nem mesmo um detalhe que enriquece os dialetos da encenação: a participação afetiva de Rolando Boldrin, o Sr. Brasil, na voz em off de Câmara Cascudo. Os figurinos - criados por J.C. Serroni e Telumi Hellen - são ricos em informação, mas também brincam com o mundo fantasioso deste Brasilzão afora. Serroni ainda cuidou da cenografia, que reforça algumas de suas ideias para espetáculos anteriores, até peças antigas do próprio Capella, mas as atualiza com requintes criativos de quem sabe melhorar o que já era bom (caso das cortinas de fitas com seus multiefeitos de cor e textura ou do vestido da sereia, amplo como uma grande cascata, que depois vira o próprio mar e ?engole? a personagem). Autor e diretor que criou uma trajetória artística voltada para a quebra de tabus no teatro feito para jovens e crianças, era natural que Capella fizesse escolhas temáticas coerentes com o restante de sua obra. Assim, mais uma vez a morte está presente em seu espetáculo e, desta vez, mais do que nos outros, ela é personagem de carne e osso, que alinhava, com o próprio folclorista, todos os contos da peça. Luiz Damasceno faz o velho Cascudo acaipirado e Selma Egrei, que foi a bruxa de O Homem das Galochas, personifica a Morte. Soma-se ao talento da dupla de protagonistas outro tarimbado ator, mas em papel menor, Guilherme Sant?Anna, na pele de um velho pescador, daqueles que sabem contar causos e "mentiras sinceras". Esse trio de ouro consegue mais do que segurar rédeas para um numeroso elenco de jovens: os três parecem contaminar o grupo com um rigor interpretativo linear, que não permite deslizes de nenhum tipo. No espetáculo anterior de Capella no Sesi, Tristão e Isolda, as discrepâncias do elenco irregular apareciam mais.Vladimir Capella, pela carreira homogênea de sucessos, pelas escolhas temáticas fortes que nunca cedem espaço às facilidades mercadológicas, pela coleção de prêmios e reconhecimentos, é um dos diretores de São Paulo que mereceriam um olhar mais cuidadoso de quem dá as cartas na política cultural. Sete anos com um texto como O Colecionador de Crepúsculos parado na gaveta? Isso é vergonhoso, senhoras e senhores. ServiçoO Colecionador de Crepúsculos. 90 min. Livre. Teatro do Sesi (456 lug.). Avenida Paulista, 1.313, 3146-7405. Sáb. e dom., às 16 h. Grátis. Até 5/7

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