Fogo temporário

O francês Jacques Le Goff era (ou ainda é, acho que está vivo) um historiador especializado na Idade Média. É dele a teoria de que o Purgatório foi criado oficialmente pela Igreja, na segunda metade do século 12, para permitir que bons católicos pudessem emprestar dinheiro a juros sem ir direto para o Inferno, que até então era o castigo prescrito para a usura. O edito pontifical que determinou essa radical mudança na geografia do Além chamava o "Purgatorium", palavra que usava pela primeira vez como substantivo em vez de adjetivo, de "fogo temporário". O martírio do Purgatório era igual ao do Inferno, mas com prazo para terminar. Depois de purgada a alma do cristão ia para o Céu, ficha limpa. E os lucros com os juros em vida mais que compensavam o sofrimento temporário depois da morte.Mas Le Goff também teorizou sobre um fascinante paralelo entre a experiência das almas no Purgatório e o crescimento da narrativa pessoal como gênero literário. Ideias sobre algum tipo de purgação depois da morte para pecados menores eram comuns desde a antiguidade mas o Purgatório como um espaço definido entre o Céu e o Inferno, regulamentado, por assim dizer, pela Igreja, era uma novidade. Era o cenário para uma aventura da alma humana. O trajeto de um espírito penitente nesta paisagem era uma história de salvação individual, enquanto as almas que iam para o Céu ou o Inferno não tinham mais história, trocavam o histórico pelo eterno. Nada mais lhes acontecia depois da morte, salvo o fogo infinito punindo os caídos no Inferno. Já o Purgatório era um drama com começo, meio e redenção final. O Purgatório introduziu o enredo no Além. E o Além, por sua vez, inspirou a literatura do Ocidente, com suas narrativas de heróis e mártires sofrendo as provações do mundo.DICKComo a daquele banqueiro de Wall Street, Dick, que morreu e foi para o entreposto onde as almas são selecionadas, classificadas e encaminhadas de acordo com o destino que merecem. Dick identificou-se para uma recepcionista que digitou seus dados no computador, sacudiu a cabeça e decretou:- Inferno.Dick protestou.- Mas por quê?!- Ganância.- Eu não sabia que ganância era pecado! Não adiantou. A recepcionista não lhe ouviu, e estava quase apertando o botão vermelho que abriria o alçapão sob os seus pés para depositá-lo no Inferno quando Dick segurou a sua mão e exigiu a presença de um supervisor.Para o supervisor, insistiu que, de onde vinha, a ganância era considerada uma virtude. Era a ânsia do lucro que movia as empresas. Era a ânsia de lucrar que trazia o progresso, que fazia os homens prosperarem e enriquecerem. Ele aprendera que ter ganância era bom. E que, decididamente, não era pecado. Não merecia ir para o Inferno. O supervisor estava cansado. Só naquele dia já atendera dezenas de almas pedindo reclassificação. Desistiu de argumentar que lucrar honestamente não era ruim, mas lucrar milhões com a mentira, enganando os outros, inventando maneiras de multiplicar o valor de papéis imprestáveis - enfim, com ganância desenfreada - era pecado, sim. Decidiu ser caridoso com Dick. Disse que se ele se arrependesse da sua atuação em Wall Street, das suas falcatruas e da sua cupidez, mudaria sua sentença.- Me arrependo, me arrependo! - apressou-se a dizer Dick.- Você irá para o Purgatório, onde sofrerá um pouco com o fogo provisório mas sairá regenerado, para o Céu.- Puxa! Obrigado. Muito obrigado!O supervisor reencaminhou Dick para ser reclassificado pela recepcionista.Mas no meio do caminho, Dick virou-se e perguntou:- Vem cá, eu não ganho uma gratificaçãozinha para ficar no Purgatório?E o supervisor gritou:- INFERNO! ''O martírio do Purgatório era igual ao do Inferno, mas com prazo para terminar''''Eu não ganho uma gratificação para ficar no Purgatório? E o supervisor gritou: ?Inferno!?''

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